lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Provas de amor


Tu estavas doente, tinhas febre, estavas de atestado médico, podias levantar-te quando te sentisses em condições. Eu tinha aulas às oito da manhã, e não podia faltar, e já nem sei porquê, tinha-te dito na noite anterior que adorava os ovos mexidos que a minha mãe me fazia ao pequeno-almoço e que tu nunca me fazias ovos mexidos. Disse por dizer, talvez porque me apetecesse ovos mexidos nessa altura, pois à noite também me sabiam bem.
Tu estavas doente, com gripe, cheia de arrepios de frio, e mesmo assim, enquanto eu tomava duche, desceste à cozinha e fizeste-me ovos mexidos às sete da manhã, quando devias estar deitada, aconchegada e quentinha. Era eu que devia depois do duche trazer-te qualquer coisa à cama e fazer-te um carinho para te pores melhor.
Fiquei tão irritado quando te vi meio a cambalear na cozinha com a frigideira trémula na mão, mas só te disse: "ó minha querida, estás tão doentinha e saíste da cama para me fazeres uns ovinhos". Tu não me disseste nada, só me sorriste com um sorriso de mãe, e ficaste a ver-me comer. Eu comi e só desejava que não me fizesses a pergunta que acabaste por fazer. "Então, estão bons?". "Estão óptimos amorzinho, óptimos". Estavam horríveis, intragáveis, foram os piores ovos mexidos que comi, até sabiam a tudo menos a ovos mexidos, o que é quase impossível de acontecer, porque os ovos mexidos é a coisa mais fácil de fazer, e por muito mal que saiam, sabem sempre a ovos mexidos. Mas ficaste tão contente com a minha resposta, tão feliz. "Ainda bem amor, ainda bem". Acho que foi o carinho mais carinhoso que te podia ter feito.
Quando nesse dia voltei do trabalho já estavas boa, já não tinhas febre, eu até fiquei surpreendido. "Foi por teres gostado dos meus ovos mexidos". Ainda bem, valeu a pena, pois senti como uma queimadura na carne como gostas de mim, como me amas. E como eu te amo, apesar de, a partir daí, comer quase todos os dias, os piores ovos mexidos do mundo.
Apetecia-me entrar em ti. Ficar lá dentro quando tu tomasses banho e mexesses nas mamas e no corpo todo, sentir-te com as tuas próprias mãos e maltratar-te com as tuas próprias mãos, e sentirmos ao mesmo tempo, num só, como se não pudesses fugir da dor e do prazer que nos envolvia da mesma maneira e com a mesma intensidade, sabermos nesse instante o que cada um sentia do outro que sentia como nós, o único momento de verdade, afinal.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Tu e eu

Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo

vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
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