lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Apetecia-me entrar em ti. Ficar lá dentro quando tu tomasses banho e mexesses nas mamas e no corpo todo, sentir-te com as tuas próprias mãos e maltratar-te com as tuas próprias mãos, e sentirmos ao mesmo tempo, num só, como se não pudesses fugir da dor e do prazer que nos envolvia da mesma maneira e com a mesma intensidade, sabermos nesse instante o que cada um sentia do outro que sentia como nós, o único momento de verdade, afinal.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Tu e eu

Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo

vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
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