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O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
domingo, fevereiro 29, 2004
segunda-feira, fevereiro 23, 2004
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Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
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Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
domingo, fevereiro 08, 2004
A primeira vez
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
(3º Momento, ler os dois textos anteriores)
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
quarta-feira, janeiro 28, 2004
(2º momento - ver texto anterior)
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
terça-feira, janeiro 27, 2004
.
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
segunda-feira, janeiro 26, 2004
adeus
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
domingo, janeiro 25, 2004
11.
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
terça-feira, janeiro 20, 2004
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O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
Luta renhida para a liderança do PCP
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
domingo, janeiro 18, 2004
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País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Quem quer ser otário?
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
POEMA PARA TI POR CAUSA DO MARTINHO MARQUES
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
sexta-feira, janeiro 09, 2004
A nossa fala
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
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