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Alguém disse que "o coração de um homem tem mais quartos que uma casa de putas"
alguém dirá que o coração de uma mulher são lágrimas cercadas de gelo?
ou são pétalas que dançam ao sabor dos ventos seguros?
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lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
quarta-feira, março 31, 2004
segunda-feira, março 29, 2004
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É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
sexta-feira, março 26, 2004
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Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, março 22, 2004
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POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
terça-feira, março 16, 2004
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Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
segunda-feira, março 15, 2004
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O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
sexta-feira, março 12, 2004
Os monstruosos atentados de Madrid não me impressionam mais do que os corpos de crianças iraquianas dentro de hospitais e escolas, estilhaçados pelas bombas da "santa aliança" há uns meses atrás. A confirmar-se a autoria "árabe" do atentado, Aznar e o seu governo, fantoches do terrorismo de Estado norte-americano, não estão isentos de culpas. São eles que levam a morte em troca de petróleo, e alimentam o ódio de fanáticos extremistas.
terça-feira, março 09, 2004
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não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
segunda-feira, março 08, 2004
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teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
domingo, março 07, 2004
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Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
quarta-feira, março 03, 2004
domingo, fevereiro 29, 2004
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O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
segunda-feira, fevereiro 23, 2004
.
Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
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Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
domingo, fevereiro 08, 2004
A primeira vez
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
(3º Momento, ler os dois textos anteriores)
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
quarta-feira, janeiro 28, 2004
(2º momento - ver texto anterior)
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
terça-feira, janeiro 27, 2004
.
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
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