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ops!.. alguém me informa como se varre esta porcaria do ciberespaço??
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
sexta-feira, maio 28, 2004
segunda-feira, maio 03, 2004
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Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
quinta-feira, abril 22, 2004
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DETAILS
Há coisas em que a coisa importante são os pormenores. Mesmo uma mãe, por quem nutrimos um afecto que nos parece incondicional, não seria a mesma mãe se fosse para a praia com um bikini fio dental, ou se comprasse o cd do Valentino. Quem tomaria Jesus Cristo pelo mesmo se se descobrisse num texto da época que ele fazia concursos de arrotos com os apóstolos após cada refeição?
Para o bem e para o mal, os pormenores arrasam certezas sentimentais e ideológicas e impelem-nos para loucuras inacreditáveis.
Podemos estar apaixonadíssimos por uma mulher, o seu conjunto e os seus pormenores são deliciosos e de repente descobrimos que ela nos quer enfiar o dedo no rabo cada vez que fazemos amor. Ou nos tornados devotos ou cortamos-lhe as mãos com um machado.
Odiamos uma prima por todas as razões do mundo e mais algumas, e quando se tornava previsível que ela desse uma gargalhada de ignorância ou encolhesse os ombros com enfado, sai-se com uma citação de Kierkegaard, até com oportunidade. Ou explicamos aos tios que os laços de consanguinidade são uma cena medieval e mesmo que não sejam podem confirmar que estamos a fazer sexo seguro com a filha, ou, minados pela raiva, começamos a ler Kierkegaard para nos tornarmos competitivos em ocasiões futuras.
Damos tudo por um amigo de infância que já se sacrificou por nós em situações tão delicadas que nós nunca nos sacrificaríamos por ele, e no meio de uma discussão fundamental sobre futebol, em que nos sentimos capazes de trocar o emprego e a família por um argumento convincente, ele interrompe para perguntar com naturalidade assassina: «o que é que é isso de automatismos?». Ou lhe garantimos fama de maricas ou nos sentimos autorizados a atacar a sua bela mulher.
Somos de um partido desde que o nosso pai nos ensinou a sigla respectiva como a terceira palavra mais importante do léxico, logo a seguir a «boazona» e «bagaço». Aprendemos a acreditar nas suas virtudes e a respeitar os seus defeitos, e nas vésperas de uma eleição decisiva, aparece o Cláudio Ramos do Big-Brother Famosos a dizer que também vai votar como nós. Ou puxamos fogo ao centro de trabalho da nossa área de residência, ou havemos de encontrar um dia o Cláudio Ramos na rua, sozinho e à noite.
Eu agora ia dizer bem da terra onde vivo, mas acabo de ver o presidente da Câmara a mijar contra um daqueles contentores verdes do lixo.
DETAILS
Há coisas em que a coisa importante são os pormenores. Mesmo uma mãe, por quem nutrimos um afecto que nos parece incondicional, não seria a mesma mãe se fosse para a praia com um bikini fio dental, ou se comprasse o cd do Valentino. Quem tomaria Jesus Cristo pelo mesmo se se descobrisse num texto da época que ele fazia concursos de arrotos com os apóstolos após cada refeição?
Para o bem e para o mal, os pormenores arrasam certezas sentimentais e ideológicas e impelem-nos para loucuras inacreditáveis.
Podemos estar apaixonadíssimos por uma mulher, o seu conjunto e os seus pormenores são deliciosos e de repente descobrimos que ela nos quer enfiar o dedo no rabo cada vez que fazemos amor. Ou nos tornados devotos ou cortamos-lhe as mãos com um machado.
Odiamos uma prima por todas as razões do mundo e mais algumas, e quando se tornava previsível que ela desse uma gargalhada de ignorância ou encolhesse os ombros com enfado, sai-se com uma citação de Kierkegaard, até com oportunidade. Ou explicamos aos tios que os laços de consanguinidade são uma cena medieval e mesmo que não sejam podem confirmar que estamos a fazer sexo seguro com a filha, ou, minados pela raiva, começamos a ler Kierkegaard para nos tornarmos competitivos em ocasiões futuras.
Damos tudo por um amigo de infância que já se sacrificou por nós em situações tão delicadas que nós nunca nos sacrificaríamos por ele, e no meio de uma discussão fundamental sobre futebol, em que nos sentimos capazes de trocar o emprego e a família por um argumento convincente, ele interrompe para perguntar com naturalidade assassina: «o que é que é isso de automatismos?». Ou lhe garantimos fama de maricas ou nos sentimos autorizados a atacar a sua bela mulher.
Somos de um partido desde que o nosso pai nos ensinou a sigla respectiva como a terceira palavra mais importante do léxico, logo a seguir a «boazona» e «bagaço». Aprendemos a acreditar nas suas virtudes e a respeitar os seus defeitos, e nas vésperas de uma eleição decisiva, aparece o Cláudio Ramos do Big-Brother Famosos a dizer que também vai votar como nós. Ou puxamos fogo ao centro de trabalho da nossa área de residência, ou havemos de encontrar um dia o Cláudio Ramos na rua, sozinho e à noite.
Eu agora ia dizer bem da terra onde vivo, mas acabo de ver o presidente da Câmara a mijar contra um daqueles contentores verdes do lixo.
quarta-feira, abril 21, 2004
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Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
segunda-feira, abril 12, 2004
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um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
quarta-feira, março 31, 2004
segunda-feira, março 29, 2004
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É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
sexta-feira, março 26, 2004
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Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, março 22, 2004
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POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
terça-feira, março 16, 2004
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Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
segunda-feira, março 15, 2004
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O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
sexta-feira, março 12, 2004
Os monstruosos atentados de Madrid não me impressionam mais do que os corpos de crianças iraquianas dentro de hospitais e escolas, estilhaçados pelas bombas da "santa aliança" há uns meses atrás. A confirmar-se a autoria "árabe" do atentado, Aznar e o seu governo, fantoches do terrorismo de Estado norte-americano, não estão isentos de culpas. São eles que levam a morte em troca de petróleo, e alimentam o ódio de fanáticos extremistas.
terça-feira, março 09, 2004
.
não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
segunda-feira, março 08, 2004
.
teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
domingo, março 07, 2004
.
Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
quarta-feira, março 03, 2004
domingo, fevereiro 29, 2004
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O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
segunda-feira, fevereiro 23, 2004
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Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)
Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..
Corre o pano
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
.
Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.
domingo, fevereiro 08, 2004
A primeira vez
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?
Fecha o plano.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
(3º Momento, ler os dois textos anteriores)
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
quarta-feira, janeiro 28, 2004
(2º momento - ver texto anterior)
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
terça-feira, janeiro 27, 2004
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LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
segunda-feira, janeiro 26, 2004
adeus
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
domingo, janeiro 25, 2004
11.
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
terça-feira, janeiro 20, 2004
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O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
Luta renhida para a liderança do PCP
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
domingo, janeiro 18, 2004
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País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Quem quer ser otário?
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
POEMA PARA TI POR CAUSA DO MARTINHO MARQUES
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
sexta-feira, janeiro 09, 2004
A nossa fala
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
quarta-feira, janeiro 07, 2004
A POLÍTICA, OS INTELECTUAIS E OS OUTROS
A política está a mudar bastante e os políticos também. Este é o tempo em que político significa técnico da governação, barão de influências, fuinha de bastidores, caçador furtivo, negociador de compromissos, funcionário partidário, profissional bem ou mal pago, gestor público, engenheiro público, contabilista público, tecnocrata. Homens sem cultura política, histórica e filosófica. Homens mal-formados. Homens quase analfabetos. Homens simples, raposentos, previsíveis e artificiais. Homens comuns, disciplinados, calculistas, banais, repetitivos. Homens iguais, fardados, mal-educados, mal-humorados, grosseiros, sem elegância, sem brilho, sem fascínio, sem talento.
São assim muitos dos políticos nacionais, gente quase rasca, homens “médios”, quase cidadãos normais. Homens que o povo elege, homens que o povo gosta, homens que o povo percebe, homens quase iguais ao povo.
Por isso, os políticos não gostam dos intelectuais, dos críticos, porque pensam demais, porque criticam demais, porque trabalham pouco, porque não colam cartazes, nem beijam varinas, porque o povo também não gosta deles, porque o povo diz que eles dizem mal de tudo, e porque são indisciplinados, imodestos, impertinentes, complicados, difíceis, e, sobretudo, mutáveis, instáveis, sempre à procura das razões das coisas, sempre à procura de chatice.
Os intelectuais, como António Barreto, Vital Moreira, Pacheco Pereira, José Saramago, etc, são bons e maus ao mesmo tempo, são bons enquanto não tem importantes responsabilidades políticas e partidárias, enquanto aparecem nos tempos de antena, enquanto escrevem preâmbulos, ou cogitam em projectos políticos encomendados e supervisionados, ou enquanto a sua paciência vai permitindo o controlo partidário. Mas são maus e indesejáveis quando escrevem artigos a responder à sua consciência, quando mudam de opinião, quando concordam com os adversários, quando ameaçam a unanimidade, quando se armam em “independentes”.
A política já não serve aos intelectuais e os intelectuais já não servem à política. Por isso, os intelectuais devem exilar-se da política feita de mesquinhez e podridão; devem escrever ensaios e artigos; ir a debates e a colóquios; participar em manifestações; fazer política fora do poder; denunciar e desconstruir os vícios e os labirintos estruturais do poder, recusar a domesticação inevitável do poder sustentado na disciplina intelectual, na unidimensionalidade política, nos fretes desculpabilizadores, nos grotescos arranjos sensacionalistas sublimados pela lógica emotiva do mais básico e manipulador senso-comum. Enfim, não deixarem de ser intelectuais.
E depois temos os outros, muitos, ramificações que cruzam outras ramificações, e algumas pernadas que exibem singularidades. Eis uma breve e pessoal tipologia caricatural:
Os académicos; maduros, sérios, civilizados, eruditos, prudentes, deslocados, desadaptados, ex: Adriano Moreira (ex-CDS)
Os aristocratas; ascetas, elitistas, inflexíveis, imortais, míticos, sacerdotes, ex: Álvaro Cunhal (PCP)
Os popularuchos; dramáticos, peixeirentos, desajeitados, passionais, espertos, barulhentos, provincianos, ex: Valentim Loureiro (PSD)
Os cerebrais; gelados, implacáveis, sisudos, desconfiados, imperturbáveis, lógicos, brilhantes: ex. Garcia Pereira (PCTP-MRPP)
Os pós-modernos; academismo heterodoxo, viajados, mediáticos, oportunistas, instáveis, lúdicos, atentos, ex: Santana Lopes (ex-PPD)
Os excêntricos; arrogantes, autoritários, pimbalhescos, retóricos, demagógicos, esquizofrénicos, infantis, ex: Alberto João Jardim (PSD)
Os precocemente envelhecidos; imitadores de tiques, precocemente calvos, precocemente previsíveis, precocemente adultos, precocementes adeptos de fatos cinzentos, jovens tristes: ex: António Filipe (ex-JCP) e ex aequo Carlos Coelho (ex-JSD)
Os sátiros; oitocentistas, cómicos, ciumentos, maneiristas, gozões, ex: Carlos Candal (PS)
Os jet-set; empresários, elegantes, charmosos, conferencistas, congressistas, risonhos, ricos, simpáticos, interessantes, ex: Pinto Balsemão (PSD)
Os conservadores; católicos, argutos, moralistas, chefes-de-família, oradores, trabalhadores, empenhados, ex: Maria José Nogueira Pinto (PP)
Os operários; lutadores, nervosos, esganiçados, mal-vestidos, briosos, susceptíveis, incansáveis, minuciosos, ex: Odete Santos (PCP).
Os líricos; verdadeiros, tolerantes, imprevisíveis, bonitos, agradáveis, fraternos, sensíveis, convictos, contraditórios, ex: Manuel Alegre (PS)
Os comentadores; verborreicos, opinativos, categóricos, ilusionistas, cínicos, convencidos, vaidosos, ex: Marcelo Rebelo de Sousa (PSD)
Os anacrónicos; moles, nostálgicos, indecisos, esforçados, inverosímeis, ex: Carlos Carvalhas (PCP)
Os freaks; noctívagos, irritáveis, persistentes, descontraídos, actualizados, cosmopolitas, desviantes, ex: Miguel Portas (BE)
A política está a mudar bastante e os políticos também. Este é o tempo em que político significa técnico da governação, barão de influências, fuinha de bastidores, caçador furtivo, negociador de compromissos, funcionário partidário, profissional bem ou mal pago, gestor público, engenheiro público, contabilista público, tecnocrata. Homens sem cultura política, histórica e filosófica. Homens mal-formados. Homens quase analfabetos. Homens simples, raposentos, previsíveis e artificiais. Homens comuns, disciplinados, calculistas, banais, repetitivos. Homens iguais, fardados, mal-educados, mal-humorados, grosseiros, sem elegância, sem brilho, sem fascínio, sem talento.
São assim muitos dos políticos nacionais, gente quase rasca, homens “médios”, quase cidadãos normais. Homens que o povo elege, homens que o povo gosta, homens que o povo percebe, homens quase iguais ao povo.
Por isso, os políticos não gostam dos intelectuais, dos críticos, porque pensam demais, porque criticam demais, porque trabalham pouco, porque não colam cartazes, nem beijam varinas, porque o povo também não gosta deles, porque o povo diz que eles dizem mal de tudo, e porque são indisciplinados, imodestos, impertinentes, complicados, difíceis, e, sobretudo, mutáveis, instáveis, sempre à procura das razões das coisas, sempre à procura de chatice.
Os intelectuais, como António Barreto, Vital Moreira, Pacheco Pereira, José Saramago, etc, são bons e maus ao mesmo tempo, são bons enquanto não tem importantes responsabilidades políticas e partidárias, enquanto aparecem nos tempos de antena, enquanto escrevem preâmbulos, ou cogitam em projectos políticos encomendados e supervisionados, ou enquanto a sua paciência vai permitindo o controlo partidário. Mas são maus e indesejáveis quando escrevem artigos a responder à sua consciência, quando mudam de opinião, quando concordam com os adversários, quando ameaçam a unanimidade, quando se armam em “independentes”.
A política já não serve aos intelectuais e os intelectuais já não servem à política. Por isso, os intelectuais devem exilar-se da política feita de mesquinhez e podridão; devem escrever ensaios e artigos; ir a debates e a colóquios; participar em manifestações; fazer política fora do poder; denunciar e desconstruir os vícios e os labirintos estruturais do poder, recusar a domesticação inevitável do poder sustentado na disciplina intelectual, na unidimensionalidade política, nos fretes desculpabilizadores, nos grotescos arranjos sensacionalistas sublimados pela lógica emotiva do mais básico e manipulador senso-comum. Enfim, não deixarem de ser intelectuais.
E depois temos os outros, muitos, ramificações que cruzam outras ramificações, e algumas pernadas que exibem singularidades. Eis uma breve e pessoal tipologia caricatural:
Os académicos; maduros, sérios, civilizados, eruditos, prudentes, deslocados, desadaptados, ex: Adriano Moreira (ex-CDS)
Os aristocratas; ascetas, elitistas, inflexíveis, imortais, míticos, sacerdotes, ex: Álvaro Cunhal (PCP)
Os popularuchos; dramáticos, peixeirentos, desajeitados, passionais, espertos, barulhentos, provincianos, ex: Valentim Loureiro (PSD)
Os cerebrais; gelados, implacáveis, sisudos, desconfiados, imperturbáveis, lógicos, brilhantes: ex. Garcia Pereira (PCTP-MRPP)
Os pós-modernos; academismo heterodoxo, viajados, mediáticos, oportunistas, instáveis, lúdicos, atentos, ex: Santana Lopes (ex-PPD)
Os excêntricos; arrogantes, autoritários, pimbalhescos, retóricos, demagógicos, esquizofrénicos, infantis, ex: Alberto João Jardim (PSD)
Os precocemente envelhecidos; imitadores de tiques, precocemente calvos, precocemente previsíveis, precocemente adultos, precocementes adeptos de fatos cinzentos, jovens tristes: ex: António Filipe (ex-JCP) e ex aequo Carlos Coelho (ex-JSD)
Os sátiros; oitocentistas, cómicos, ciumentos, maneiristas, gozões, ex: Carlos Candal (PS)
Os jet-set; empresários, elegantes, charmosos, conferencistas, congressistas, risonhos, ricos, simpáticos, interessantes, ex: Pinto Balsemão (PSD)
Os conservadores; católicos, argutos, moralistas, chefes-de-família, oradores, trabalhadores, empenhados, ex: Maria José Nogueira Pinto (PP)
Os operários; lutadores, nervosos, esganiçados, mal-vestidos, briosos, susceptíveis, incansáveis, minuciosos, ex: Odete Santos (PCP).
Os líricos; verdadeiros, tolerantes, imprevisíveis, bonitos, agradáveis, fraternos, sensíveis, convictos, contraditórios, ex: Manuel Alegre (PS)
Os comentadores; verborreicos, opinativos, categóricos, ilusionistas, cínicos, convencidos, vaidosos, ex: Marcelo Rebelo de Sousa (PSD)
Os anacrónicos; moles, nostálgicos, indecisos, esforçados, inverosímeis, ex: Carlos Carvalhas (PCP)
Os freaks; noctívagos, irritáveis, persistentes, descontraídos, actualizados, cosmopolitas, desviantes, ex: Miguel Portas (BE)
FAMA
Eu estava nervoso. Era natural, eu queria realizar um sonho. O grande sonho da minha vida. Por ele eu faria tudo. Por ele eu estava a fazer tudo. Por ele eu estava disposto a tudo. Por isso eu estava nervoso. Aproximava-se a minha vez. Eu tinha que mostrar que tinha talento, que era capaz. Que era capaz de vencer a timidez, de me soltar, de não chorar, de não me enganar.
Cantei uma música do Carlos Paião, uma bonita, e acho que cantei bem.
Mas o júri disse-me que eu era muito gordo, que parecia um moinho, apesar de ter cantado bem, sem desafinar.
Não sei se foi para fazer justiça ao Carlos Paião, ou para homenagear os gordos, ou para me sentir compensado por ter perdido o emprego como consequência destas provas, ou para mostrar em directo aos rapazes da minha aldeia que quem canta Carlos Paião não deixa de ser um homem com eles no sítio. Não sei se foi por me terem roubado um sonho tão bonito, o sonho de ser famoso e aparecer nas capas das revistas e na televisão.
Não sei se foi apenas por instinto que pus o microfone dentro do estômago de um dos membros do júri, e pus a mesa sentada na cabeça de outro dos membros do júri, e pus a cabeça de outro membro do júri pendurada no candeeiro.
Não estava nervoso. E como que por milagre, o sonho realizou-se. Fui campeão de audiências, saí em todas as revistas da especialidade, fui convidado para participar no festival da canção, ofereceram-me um tratamento de emagrecimento, e quando sair da prisão já tenho um contrato assinado para um programa de televisão só meu.
Eu estava nervoso. Era natural, eu queria realizar um sonho. O grande sonho da minha vida. Por ele eu faria tudo. Por ele eu estava a fazer tudo. Por ele eu estava disposto a tudo. Por isso eu estava nervoso. Aproximava-se a minha vez. Eu tinha que mostrar que tinha talento, que era capaz. Que era capaz de vencer a timidez, de me soltar, de não chorar, de não me enganar.
Cantei uma música do Carlos Paião, uma bonita, e acho que cantei bem.
Mas o júri disse-me que eu era muito gordo, que parecia um moinho, apesar de ter cantado bem, sem desafinar.
Não sei se foi para fazer justiça ao Carlos Paião, ou para homenagear os gordos, ou para me sentir compensado por ter perdido o emprego como consequência destas provas, ou para mostrar em directo aos rapazes da minha aldeia que quem canta Carlos Paião não deixa de ser um homem com eles no sítio. Não sei se foi por me terem roubado um sonho tão bonito, o sonho de ser famoso e aparecer nas capas das revistas e na televisão.
Não sei se foi apenas por instinto que pus o microfone dentro do estômago de um dos membros do júri, e pus a mesa sentada na cabeça de outro dos membros do júri, e pus a cabeça de outro membro do júri pendurada no candeeiro.
Não estava nervoso. E como que por milagre, o sonho realizou-se. Fui campeão de audiências, saí em todas as revistas da especialidade, fui convidado para participar no festival da canção, ofereceram-me um tratamento de emagrecimento, e quando sair da prisão já tenho um contrato assinado para um programa de televisão só meu.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Sem escrúpulos
Ela entrou sem que eu desse conta. É a minha repetida estupidez de dar as chaves sem ter a certeza que aquela mulher é muito diferente das outras que levaram coisas como o estojo da barba. Para quê levar o estojo da barba? Qual o sentido? E nesta a probalidade aumenta, porque deixa crescer os pêlos nas axilas. Facto que é bem diferente do que estou acostumado a ver nas outras, mas é também a certeza, tal qual as outras, que não se vai definitivamente sem surrupiar lá de casa qualquer coisa de memorável, como uma ficha tripla ou um pano da louça, pois eu já reparei como ela olha deliciada para aquele cinzeiro de lata que o homem do talho me ofereceu. E sairá sem que eu dê conta. Nem puxará o autoclismo nessa manhã. Nem usará a escova de dentes que eu lhe ofereci. Nem terá o pudor ético do adeus escrito a baton no espelho da casa de banho. Nem se lembrará de deixar as chaves perto do local onde estava o porta-moedas.
Mas eu gosto de dar as chaves, faz parte de mim, da minha natureza. Por isso, acho que me resta apenas inaugurar um movimento social que defenda a pena de morte para as ladras fetichistas. Mais valia que me roubassem o coração, isso eu ainda perdoaria, e até agradecia, pois já não me custaria nada, já não sofreria com a falta da cassete de vídeo. Mas também que raio de mania a minha de gravar os jogos da selecção por cima dos filmes românticos, dos filmes que elas gostam tanto.
Mas a esta agora não lhe dei a chaves, queria dizer-vos. Por isso, continuo sem perceber porque é que me arrombou a porta no fim-de-semana em que fui visitar o meu tio diabético, e me roubou, sem sentido nenhum, o balde do lixo.
Ela entrou sem que eu desse conta. É a minha repetida estupidez de dar as chaves sem ter a certeza que aquela mulher é muito diferente das outras que levaram coisas como o estojo da barba. Para quê levar o estojo da barba? Qual o sentido? E nesta a probalidade aumenta, porque deixa crescer os pêlos nas axilas. Facto que é bem diferente do que estou acostumado a ver nas outras, mas é também a certeza, tal qual as outras, que não se vai definitivamente sem surrupiar lá de casa qualquer coisa de memorável, como uma ficha tripla ou um pano da louça, pois eu já reparei como ela olha deliciada para aquele cinzeiro de lata que o homem do talho me ofereceu. E sairá sem que eu dê conta. Nem puxará o autoclismo nessa manhã. Nem usará a escova de dentes que eu lhe ofereci. Nem terá o pudor ético do adeus escrito a baton no espelho da casa de banho. Nem se lembrará de deixar as chaves perto do local onde estava o porta-moedas.
Mas eu gosto de dar as chaves, faz parte de mim, da minha natureza. Por isso, acho que me resta apenas inaugurar um movimento social que defenda a pena de morte para as ladras fetichistas. Mais valia que me roubassem o coração, isso eu ainda perdoaria, e até agradecia, pois já não me custaria nada, já não sofreria com a falta da cassete de vídeo. Mas também que raio de mania a minha de gravar os jogos da selecção por cima dos filmes românticos, dos filmes que elas gostam tanto.
Mas a esta agora não lhe dei a chaves, queria dizer-vos. Por isso, continuo sem perceber porque é que me arrombou a porta no fim-de-semana em que fui visitar o meu tio diabético, e me roubou, sem sentido nenhum, o balde do lixo.
Provas de amor
Tu estavas doente, tinhas febre, estavas de atestado médico, podias levantar-te quando te sentisses em condições. Eu tinha aulas às oito da manhã, e não podia faltar, e já nem sei porquê, tinha-te dito na noite anterior que adorava os ovos mexidos que a minha mãe me fazia ao pequeno-almoço e que tu nunca me fazias ovos mexidos. Disse por dizer, talvez porque me apetecesse ovos mexidos nessa altura, pois à noite também me sabiam bem.
Tu estavas doente, com gripe, cheia de arrepios de frio, e mesmo assim, enquanto eu tomava duche, desceste à cozinha e fizeste-me ovos mexidos às sete da manhã, quando devias estar deitada, aconchegada e quentinha. Era eu que devia depois do duche trazer-te qualquer coisa à cama e fazer-te um carinho para te pores melhor.
Fiquei tão irritado quando te vi meio a cambalear na cozinha com a frigideira trémula na mão, mas só te disse: "ó minha querida, estás tão doentinha e saíste da cama para me fazeres uns ovinhos". Tu não me disseste nada, só me sorriste com um sorriso de mãe, e ficaste a ver-me comer. Eu comi e só desejava que não me fizesses a pergunta que acabaste por fazer. "Então, estão bons?". "Estão óptimos amorzinho, óptimos". Estavam horríveis, intragáveis, foram os piores ovos mexidos que comi, até sabiam a tudo menos a ovos mexidos, o que é quase impossível de acontecer, porque os ovos mexidos é a coisa mais fácil de fazer, e por muito mal que saiam, sabem sempre a ovos mexidos. Mas ficaste tão contente com a minha resposta, tão feliz. "Ainda bem amor, ainda bem". Acho que foi o carinho mais carinhoso que te podia ter feito.
Quando nesse dia voltei do trabalho já estavas boa, já não tinhas febre, eu até fiquei surpreendido. "Foi por teres gostado dos meus ovos mexidos". Ainda bem, valeu a pena, pois senti como uma queimadura na carne como gostas de mim, como me amas. E como eu te amo, apesar de, a partir daí, comer quase todos os dias, os piores ovos mexidos do mundo.
Tu estavas doente, tinhas febre, estavas de atestado médico, podias levantar-te quando te sentisses em condições. Eu tinha aulas às oito da manhã, e não podia faltar, e já nem sei porquê, tinha-te dito na noite anterior que adorava os ovos mexidos que a minha mãe me fazia ao pequeno-almoço e que tu nunca me fazias ovos mexidos. Disse por dizer, talvez porque me apetecesse ovos mexidos nessa altura, pois à noite também me sabiam bem.
Tu estavas doente, com gripe, cheia de arrepios de frio, e mesmo assim, enquanto eu tomava duche, desceste à cozinha e fizeste-me ovos mexidos às sete da manhã, quando devias estar deitada, aconchegada e quentinha. Era eu que devia depois do duche trazer-te qualquer coisa à cama e fazer-te um carinho para te pores melhor.
Fiquei tão irritado quando te vi meio a cambalear na cozinha com a frigideira trémula na mão, mas só te disse: "ó minha querida, estás tão doentinha e saíste da cama para me fazeres uns ovinhos". Tu não me disseste nada, só me sorriste com um sorriso de mãe, e ficaste a ver-me comer. Eu comi e só desejava que não me fizesses a pergunta que acabaste por fazer. "Então, estão bons?". "Estão óptimos amorzinho, óptimos". Estavam horríveis, intragáveis, foram os piores ovos mexidos que comi, até sabiam a tudo menos a ovos mexidos, o que é quase impossível de acontecer, porque os ovos mexidos é a coisa mais fácil de fazer, e por muito mal que saiam, sabem sempre a ovos mexidos. Mas ficaste tão contente com a minha resposta, tão feliz. "Ainda bem amor, ainda bem". Acho que foi o carinho mais carinhoso que te podia ter feito.
Quando nesse dia voltei do trabalho já estavas boa, já não tinhas febre, eu até fiquei surpreendido. "Foi por teres gostado dos meus ovos mexidos". Ainda bem, valeu a pena, pois senti como uma queimadura na carne como gostas de mim, como me amas. E como eu te amo, apesar de, a partir daí, comer quase todos os dias, os piores ovos mexidos do mundo.
Apetecia-me entrar em ti. Ficar lá dentro quando tu tomasses banho e mexesses nas mamas e no corpo todo, sentir-te com as tuas próprias mãos e maltratar-te com as tuas próprias mãos, e sentirmos ao mesmo tempo, num só, como se não pudesses fugir da dor e do prazer que nos envolvia da mesma maneira e com a mesma intensidade, sabermos nesse instante o que cada um sentia do outro que sentia como nós, o único momento de verdade, afinal.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Tu e eu
Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo
vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
.........
Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo
vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
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