(3º Momento, ler os dois textos anteriores)
De regresso à sala de convívio, António Vidinhas levou-nos ao "sector" das senhoras. Estão todas em silêncio. Queremos saber como passam os dias.
Cristina Bule, de oitenta e um anos, cantava no coro da Igreja de Pias. E de vez em quando celebra as canções religiosas com a sua voz., ali na sala. "Estava a cantar há bocadinho", disse alguém. Mas agora não quis cantar. "Da televisão o que vejo sempre é a missa ao Domingo, mesmo que elas não queiram, vejo sempre. Ah, e quando joga o Benfica também". Cristina já participou em várias excursões e fala com ternura das amizades que fez no lar.
Maria Josefa tem oitenta e quatro anos e vive há três anos no lar com o marido, de oitenta e sete anos, que já está cego e surdo. Tem melhores condições aqui do que em casa, e os seus filhos estão "cada um a governar a sua vida".
Cabisbaixa e enlutada, Francisca Caeiro, de setenta e três anos, fala com mágoa e sofrimento. Foi encarregada-geral do lar durante muitos anos e por obra do "destino" acabou por entrar para o lar como utente. É solteira, só tem o irmão que "acha que ela está melhor aqui". Sente-se revoltada? "Sim". "Aqui tratam-nos bem, mas não há lugar como a nossa casa".
Os homens são em maior número, e estão sentados em cadeiras individuais. Outros estão em cadeiras de rodas.
Luís Teles, de oitenta e dois anos, está no lar desde 1997. Enviuvou e "resolveu vir para cá". Sente-se bem aqui. O que é que faz no dia a dia? "Jogo às cartas, ao dominó, e estamos aqui nas cadeiras".
Armando faz noventa e dois anos. Está numa cadeira de rodas e tem na mão um cachimbo apagado. No chão espalham-se novelos de tabaco. Percebe-se mal, a voz escapa-se-lhe entre pausas e tremores. Também se sente bem no lar. E passa o dia "sentado e fumando".
António Vidinha apresenta-nos agora os mais velhinhos do lar. Primeiro, Maria Simões, de noventa e nove anos, bem agasalhada numa manta, solta o pescoço, arregala os olhos e estica a voz para nos falar na festa dos cem anos que lhe vão preparar. Depois, José Caixinha, que é o ancião mais vetusto do lar, com noventa e três anos. Está no lar há dois anos e sente-se bem. É um dos indefectíveis do dominó e diz-nos em tom maroto que ainda arranja casamento.
Fomos embora e António Vidinha despediu-se em comoção, quis também dizer-nos umas quadras que não regista em papel, a terceira classe que fez já depois dos trinta anos não lhe permite. "Estas são sobre a passarada". Fica aqui o mote:
"Nas aves que há pelo ar
O grifo mais o milhano
O gavião é o rei
E o corvo é republicano".
Quisemos encontrar e mostrar o que num lar podia haver de ternura e bondade, de vida e esperança. Mas não podemos fazer de conta; por muito acolhedor e simpático que seja um lar, é sempre uma solução de recurso, um mal menor, uma colecção de dificuldades postas em coexistência, um "lar" emprestado. Mesmo que palavras de gratidão ponham num lar o que as traições da vida conseguiram roubar. Como exprimem as quadras da D. Ursula:
"O lar de S. José
É um lar de muito talento
Onde os pobres dos velhos
Acharam acolhimento
Temos a comida feita
Temos a roupa lavada
Temos cama para dormir
Aqui não nos falta nada
Só o que nos falta é a saúde
Coisa que já abalou
E o que abala já não volta
Nesta idade em que eu estou".
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
quarta-feira, janeiro 28, 2004
(2º momento - ver texto anterior)
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
Na sala de convívio, ampla e com divisões abertas, os homens estão distribuídos pelas cadeiras que acompanham as paredes, e as mulheres reunem-se num recanto. Neste sábado de manhã as televisões estavam todas apagadas e ouvia-se rádio, música portuguesa. Muitos dos idosos estão a dormir, com a cabeça pendente para a frente, outros olham para mim quase com indiferença absoluta, outros permanecem de olhar fixo e vazio, outros suspiram e baixam os olhos, outros devolvem-me a curiosidade numa espreitadela por cima dos óculos.
Fomos ao primeiro andar. Os quartos e camaratas são modestos, mas estão arrumados e limpos, o mobiliário é singelo e austero, mas é a luz, muita luz, que os torna agradáveis. A ala feminina é mais graciosa, vêm-se quadros, muitos objectos pessoais, fotografias dos filhos e dos netos, caixas de sapatos com as memórias que largam lágrimas, rendas e bordados, santinhas e jarrinhas.
Num desses quartos, perto da cama e da janela, ao pé de um aquecedor, com uma mantinha a cobrir o seu luto, está a D. Ursula Vicente da Conceição, "mas só me conhecem por Ursula Castanhita". Ursula é uma velhinha de setenta e nove anos, e sentada, de tão pequena, parece uma criança com rugas e só dois dentes à frente. "Se agora tenho esta fraca figura imagine o corpo que eu tinha quando comecei a guardar gado aos sete anos". Ursula está no lar há oito anos, ficou viúva e depois "passou-lhe uma coisa", e "como não dava as coisas feitas lá em casa" veio para o lar. Ursula sente-se bem no lar, sente-se que se sente bem. A filha leva-a a almoçar muitas vezes. Ursula faz camisolas de malha para as crianças, mas o seu maior talento são as quadras, até já apareceu na TVI, mas ficou tão nervosa que não conseguiu dizê-las. Apesar de "não conhecer uma letra", Ursula faz quadras desde os seus doze anos e guarda-as no "sentido". Quis dizer-nos algumas:
"Com sete anos de idade
Comecei a penar
Atrás de um rebannho de gado
Para o meu pai ajudar
Mas tinha que descalça andar
Por aqueles cereais
E enganavam-me os meus pais
Vou-te uns sapatos comprar
Quando esse pé se curar
Que está cheio de matulões
E as pernas cheias de rasgões
Dos matos atravessar
Mas tinha que o gado ir voltar
Era a minha obrigação
Para poder ganhar o pão
Se queria a fome matar.
Ursula também fez muitas quadras sobre o Lar de S. José, onde "não tem nada a dizer de ninguém, só bem". O senhor Vitorino trouxe umas folhas com as quadras passadas a computador e a assinatura da D. Ursula, uma pequenina impressão digital a azul escuro. Uma senhora tão prendada e de tantos talentos deve ser cobiçada pelos rapazes aqui do lar, não? Ursula comove-se e aperta-se-lhe a voz. "Isso não é para mim, Deus quis levar-me quem me fazia companha".
terça-feira, janeiro 27, 2004
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LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
LAR, DOCE LAR (Reportagem não publicada, em 3 momentos)
1º Momento
A ideia que temos, que fazemos de um lar, é a de um depósito de velhos doentes, abandonados pela família, tristes, desalentados, derrotados, gastando os dias a adiar a morte ou esperando a morte para sossegar os dias. É também, muitas vezes, a ideia de um espaço frio e desumano, desaconchegado e até clandestino, onde os filhos escondem os pais tornados empecilhos, onde senhores espertos transformam em negócio fácil a antecâmara da morte.
Quisemos imaginar um lar bonito, alegre, bem-disposto, agradável, simpático, com idosos radiantes e satisfeitos, a vender saúde, rodeados de amigos e visitados pela família.
Quisemos esquecer o que um lar possa ter de coisas más, de empregados insensíveis, de comida sofrível, de enfermeiros ausentes, de ambiente desolador.
Fomos ao Lar de S. José, da Fundação Viscondes de Messangil, em Pias. É um lar subsidiado pela Segurança Social e recebe utentes de todo o alentejo e não só.
O edíficio que alberga o lar foi construído de raiz há cerca de nove anos e sofreu obras de ampliação. Inclui no rés do chão uma sala de convívio, uma sala de refeições, sanitários, um pátio interior, e no primeiro andar, com acesso por escadas e elevador, encontram-se os quartos e as camaratas, uma ala masculina e outra feminina, e também quartos de casal. Muitos dos quartos estão equipados com televisão, mas esse é um "luxo" que fica a cargo de cada "hóspede".Os utentes do lar levantam-se pelas 6h, às 8h tomam o pequeno-almoço, depois podem circular pela sala de convívio, jogar às cartas e ao dominó, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais, regressar aos quartos e descansar, ou passear pela vila. O almoço é servido pelas 12h30m, o jantar entre as 19h30m e as 19h45m, e a maior parte dos utentes deita-se logo após o jantar, outros ficam um pouco mais a conversar ou ver televisão na sala de convívio. Neste lar também existe a tradição das excursões e passeios por todo o país.
António Vidinhas, oitenta e dois anos, é o nosso cicerone. Está no lar deste 18 de Fevereiro de 1991. Trabalhou uma vida inteira como cantoneiro, foi casado duas vezes, depois enviuvou e, como não teve filhos, ficou sozinho. E "para não estar lá para casa abandonado" veio para o lar, apesar de achar que "não há nada como a nossa casa". António Vidinhas, é baixo, curvado pela vida de trabalho, olhos pequenos mas vivos, boina alentejana, camisa de flanela abotoada até ao colarinho por baixo de um fato já gasto. É divertido e cheio de genica, apesar de uma perna "preguiçosa" que de vez em quando o deita abaixo. Mas isso não o impede de dar as suas voltas pela vila, de fazer alguns recados e levar o correio do lar.
À visita guiada veio juntar-se o senhor Vitorino, "empregado geral", pelo que percebi, empregado para todo o serviço, e que trabalha no lar desde 1990. Chega de uniforme azul, e vem simpático e afável. É um trabalho que exige grande paciência e sensibilidade, sobretudo com os acamados e doentes, não é? "Às vezes os piores são os que estão bons, pois também temos gente maldosa, há um pouco de tudo. Já tivemos um que se entretinha às escondidas a rasgar os sofás com uma faca, só para fazer mal. Há dias que saimos daqui esgotados".
segunda-feira, janeiro 26, 2004
adeus
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
Ontem, enquanto a câmara procurava nas bancadas os rostos e as lágrimas, lia-se numa faixa benfiquista «DEMASIADO FIÉIS PARA DESISTIR». Não sei se a comoção pelo que já suspeitávamos condicionou muito, mas a verdade é que senti uma profunda emoção de fé e de esperança, coisas que não me acompanham muito. Parecia que aquela frase era dirigida a todos, ao país. Uma frase mais poderosa que mil discursos do Presidente da República. Um apelo simples para que encontremos lá no âmago das nossas fidelidades a motivação suficiente para adiar a perda, para recusar a perda. Sejamos fiéis à resistência enquanto a vida respira, e choremos uma morte, sem desistência. Adeus Féher.
domingo, janeiro 25, 2004
11.
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
SEGREDOS DA HISTÓRIA
(Apresentador, em estúdio): Você pensa que as verdadeiras razões da Guerra Fria entre Russos e Americanos se devem à Baia dos Porcos, ou ao apalpanço do Krutchev à Jacquelline num jantar diplomático, ou à pneumonia que o Nixon apanhou na Sibéria, mas não. Imagens nunca dantes reveladas e que a NASA escondeu do mundo inteiro são a verdadeira razão, imagens que um espião do KGB conseguiu fazer chegar ao Kremlin na altura e que o orgulho ferido dos soviéticos só hoje permite mostrar.
(Locução off sob imagens de arquivo da ida dos americanos à lua )Estávamos em 1969, e os americanos davam mais um passo na conquista do espaço, fazendo aterrar dois astronautas na Lua. Acontece que já havia vida na lua, Laica (vê-se imagens da cadelinha vestida com uma camisola a imitar a bandeira soviética a passear na superfície lunar), a cadela que os russos enviaram para o espaço, vivia feliz, pura e casta na lua, era o símbolo da integridade ideológica soviética. Ora Neil Amstrong, depois de uma longa e difícil temporada no espaço, assim que chegou à lua, logo após ter espetado a bandeira americana, viu a cadelinha Laica meiga e afável vindo na sua direcção (vê-se a cadela a ir na direcção do astronauta) e... não resistiu... eis as imagens chocantes que puseram em perigo o futuro da humanidade e do planeta e ameaçaram uma guerra nuclear.
(vê-se um astronauta sentado de costas, com uma braçadeira igual à bandeira americana, a segurar uma cadela por trás e a simular, em movimentos lentos, a cópula com o animal)
terça-feira, janeiro 20, 2004
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O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
O CAMARADA MARCELO
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor Marcelo, o Professor, o Grande Conspirador, é, sabemo-lo hoje, graças a uma escuta telefónica ao dirigente comunista Domingos Abrantes, fruto de uma notável conspiração.
Marcelo Rebelo de Sousa, cujo nome verdadeiro é Alberto João, é afinal menos que analfabeto funcional, assina com o polegar carimbado, não sabe a tabuada, e o único livro que leu na vida foi uma revista da «GINA» já colada pelo uso. Este homem simples do campo, que cultivava tomates e pepinos por detrás das portas de sua casa, era dedicado militante do PCP, com fotografia do Lenine na sala de jantar e tudo, e já tinha levado porrada da PIDE por causa dumas alarvidades acerca do padre da paróquia, que era seu amigo do peito.
Ora aconteceu que antes do 25 de Abril, Álvaro Cunhal tinha regressado de um estágio de «implantação ideológica» na Roménia, e reuniu com a célula clandestina dos cientistas do Barreiro, para pôr em prática a nova arma da vanguarda da classe operária. Tratava-se de um chip interactivo e com controlo remoto que se implantava na axila da cobaia e que controlava o seu cérebro. O voluntário tinha que ter uma mente vazia e em estado bruto, e ter grande resistência física, visto que só podia dormir uma ou duas horas por noite, pois o cérebro tinha que estar sempre a receber informações, estratégias, tácticas, conspirações, mentiras e invenções, e o conteúdo de milhares de páginas por dia. Mas havia outra exigência ainda, tinha que ter parecenças físicas com alguém insuspeito e bem relacionado no antigo regime. Pois não só o Alberto João era a cara chapada de Marcelo, um dos filhos do salazarento Rebelo de Sousa, como ficou vermelho de emoção por poder oferecer a sua vida ao marxismo-leninismo.
E num belo domingo, o jovem Marcelo foi com os amigos dar um mergulho no Tejo, mas quando regressou à margem era já o Alberto João que vinha a dizer mal da Ala Liberal, da Ala Conservadora e de todas as alas possíveis.
Daí para a frente é o que sabemos, o erudito e sagaz Marcelo tem minado a direita e o seu próprio partido. Mas ele não diz o piorio dos «seus» por inveja ou maldade, ele está ao serviço do PCP, do qual só diz mal de vez em quando, que é para não se desconfiar. E no PCP existe um «staff» de leitores compulsivos e de estrategas políticos que todos os dias actualizam o «disco rígido» do professor Marcelo.
E o que é feito do verdadeiro Marcelo Rebelo de Sousa? Bem, depois de passar por alguns cursos de formação ideológica, o homem não havia meio de se converter e o PCP viu-se obrigado a implantar-lhe um «chip» de «depuração ideológica». Hoje ainda acredita nos amanhãs cantam e que Estaline tinha um fundo bom, é funcionário do partido, escreve temíveis artigos ortodoxos no «Avante!» a cascar nos críticos, e o PCP, em comovente demonstração de humanidade, manteve-lhe o apelido de família, Sousa, Jerónimo de Sousa.
Luta renhida para a liderança do PCP
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
Carlos Carvalhas declarou na última reunião do comité central que conta chefiar o partido até o dia em que o PCP seja governo em Portugal. Alguns membros do comité central vêem nestas palavras a vontade de Carlos Carvalhas permanecer mais algumas décadas à frente do PCP.
Mas não está sozinho nesta ambição, Zita Zeabra já informou o PCP que quer regressar, e desta vez será para comandar os destinos do partido: “Eu sou capaz de transformar a festa do “Avante!” no maior chá das cinco jamais visto”, afirmou a ex-militante à revista “Tias ao rubro”.
Odete Santos confrontada com a possibilidade de liderar o PCP, foi evasiva: “Já tenho experiência de actriz de comédia, mas ainda me falta aprender muito no capítulo das expulsões. Entrar para o Big Brother famosos é o meu próximo desafio”.
Carvalho da Silva também foi abordado, mas mostrou-se hesitante: “Enquanto for dirigente sindical é difícil despedirem-me com justa causa, e eu tenho uma família para criar. Eles que apostem em militantes desempregados”.
António Filipe, o calvo mas jovem parlamentar do PCP, nega que seja um dos eventuais candidatos: “O partido já me disse que eu estou fora de questão, não fui preso antes do 25 de Abril. Eu já lhes expliquei que ainda mamava nessa altura. Por isso, deve ser por eu lanchar com o pessoal do Bloco”.
Mas a organização regional do Alentejo do PCP também quer entrar na corrida para o cargo de secretário-geral, e em comunicado afirmou que é “urgente rejuvenescer o partido”, e não exclui a candidatura de Manuel Lopes, militante de base de Baleizão, reformado e actualmente com 89 anos.
domingo, janeiro 18, 2004
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País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
País único
Vejam, reparem, na capa e contra-capa revista "Única" do jornal "Expresso" desta semana. Não há melhor metáfora para mostrar aquilo em que nos estamos transformando, num tranquilo terceiro-mundismo.
Vejam, sintam, na capa, o olhar acomodado de uma família pobre, muito pobre. A perversidade elegante de uma pobreza quase orgulhosa. Uma pobreza estilizada, a preto e branco. Uma pobreza resignada, na sua luta de pobres na pobreza. Uma pobreza "natural", naturalmente pobres. É assim que o jornalismo nos dá a pobreza, como natural, com naturalidade, "façam um ar natural para a fotografia", parece que ouvimos dizer. É a pobreza, muita, muitos. A realidade.
Reparem na contra-capa. A exclusividade do novo BMW Série 6. Único. Especial. A cores. Inacessível. Naturalmente inacessível. Um automóvel sem ninguém lá dentro. Um automóvel para ninguém, para quase ninguém. O fétiche mais imponente dos nossos sonhos pobres, de pobres. A pobreza dos sonhos, também.
Por detrás do carro, uma casa, de singular arquitectura. Desabitada. O passeio, desabitado, é ocupado pelo automóvel, a patética humanização do carro. É assim que a publicidade fabrica os nossos sonhos e nos anestesia.
Capa e contra-capa, duas faces de costas voltadas, a assimetria perfeita do nosso país, onde a realidade se vê cinzenta e triste, no desespero dos dias difíceis, e os sonhos já não são habitados por nós.
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Quem quer ser otário?
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
Apresentador: Hoje temos como concorrente o senhor Manuel Palminha do Monte das Carochas, tem 24 anos e tem a seu cargo um rebanho de porcos. Ora, atenção à primeira pergunta, para 25 euros:
Qual destes números é impar?:
A - 2
B - 3
C - 4
D - 7958
Lembro ao senhor Manuel que tem três ajudas, a ajuda do público, a ajuda telefónica e a eliminação de duas respostas erradas pelo computador.
(pequena pausa)
Pense bem, a pergunta não é fácil, mas também não é das mais difíceis.
Concorrente: Eu cá já soube isto dos pares e dos ímpares, mas já deixei a escola há tanto tempo… deixe-me ver... a resposta D não deve ser, porque é um número muito grande e eu acho que os números ímpares não tinham tantos números... o 4 também não me parece... porque dois pares de pneus são 4.
Apresentador: Está a ir bem... o seu raciocínio está correcto... não se precipite. Lembro-lhe que pode usar uma das três ajudas.
Concorrente: Pois... mas eu não queria gastar já uma ajuda logo na primeira pergunta... mas não é fácil… bem... o 2 é um mais um e o um eu sei que é ímpar... estou inclinado para a resposta A.
Apresentador: Tem a certeza?... veja lá... olhe que o 3 é um mais um mais um, são três números ímpares. Mas você é que sabe...
Concorrente: Sim... acho que o três é mais ímpar que o dois... de facto... sim... escolho a resposta B.
Apresentador: É a B? Podemos bloquear a resposta?
Concorrente: Sim!
Apresentador: Vamos então bloquear e... está certo. Não vamos perder mais tempo e passar já para a segunda pergunta. Está mais calmo agora?
Concorrente: Ó homem, tou lá calmo! Estou com uma camada de nervos que não me aguento.
Apresentador: Então para 50 euros, a pergunta é a seguinte:
Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio
B- Marcelo Caetano
C- Jorge Sampaio
E - Manuela Eanes
Concorrente: Estou arrumado... eu de política não percebo nada!
Apresentador: Sim... mas trata-se do Presidente da República sr. Manuel e estamos a referir-nos a 2002!!
Concorrente: Eu do Eanes lembro-me... mas acho que ele não se chamava Manuela.. o Marcelo Caetano não faço a mínima ideia de quem seja.. eu acho que houve um presidente que era qualquer coisa Compaio, agora se era Daniel ou Jorge é que eu não sei...
Apresentador: Tem ainda as três ajudas ou quer arriscar?
Concorrente: Eu acho que vou pedir a ajuda telefónica, é melhor jogar pelo seguro e a pessoa que me vai ajudar deve saber de certeza.
Apresentador: E quem é que escolheu para o ajudar?
Concorrente: Escolhi o meu amigo Inácio que tem um talho ali em Castro Verde e só vende carne da melhor, não é nada de vacas loucas, eu aliás aconselho todos a irem...
Apresentador (interrompendo-o): Muito bem senhor Manuel, vamos então fazer a chamada para o senhor Inácio e colocar-lhe a questão... o telefone está a chamar... sim, está sim? Daqui fala do concurso "Quem quer ser otário".
Sr. Inácio: Como está Dr. Jorge Espichel, daqui fala Inácio Valadas, dono de um talho na Travessa do General sem Medo, em Castro Verde, tenho tudo do melhor... enchidos...
Apresentador (interrompendo-o): Sr. Inácio, o seu amigo Manuel vai ler-lhe a questão e tem 30 segundos para lhe dar a resposta correcta. Entendido?
Sr. Inácio: Afirmativo!
Concorrente: Está? Inácio?
Sr. Inácio: Diz bandido! Despacha lá isso que eu tenho a cafeteira ao lume!
Concorrente: escuta: a pergunta é: Qual o nome do Presidente da República Portuguesa em 2002?
A - Daniel Sampaio, B- Marcelo Caetano, C- Jorge Sampaio, E - Manuela Eanes
Sr. Inácio: Não é nenhuma dessas porra! O presidente era o Bochechas, o Soares!
Concorrente: Tens a certeza??
Sr.Inácio: Pela alminha da minha mãe!
Concorrente: Então mas depois dele não houve já outro?
Sr. Inácio: Nã sei, que eu desde que o Otelo perdeu nunca mais votei.
Concorrente: Tá bem Inácio, obrigado.
Sr. Inácio: Vá, e se ganhares nã te esqueças que me deves 150 contos, que me pediste para arranjares os dentes...
Apresentador: Acabou o tempo, obrigado Sr. Inácio. E agora sr. Manuel? O seu amigo não deu uma resposta válida, vai ter que escolher.
Concorrente: Pois é... o Soares não está ali, o Jorge Soares... Só se Soares era alcunha de Sampaio... é isso Jorge Sampaio. É a resposta C. Mas pelo sim pelo não quero usar a ajuda 50/50.
Apresentador: Ok. O computador vai eliminar duas respostas erradas… e ficou… a resposta E e a resposta C. E agora?
Concorrente: Pois, eu sabia.. é a C.
Apresentador: Tem a certeza?
Concorrente: Não tenho a certeza de nada que eu já lhe disse que não gosto de política, é tudo uma cambada de chulos, mas parece-me que seja essa.
Apresentador: É a sua escolha, está decidido?
Concorrente: Está.
Apresentador: .... E está certo. Palmas para o sr. Manuel que acaba de ganhar 50 euros. E agora entramos para um patamar mais exigente, as questões serão mais difíceis, vamos ver se o sr. Manuel está à altura. Está preparado?
Concorrente: Desde que não sejam questões de geografia, política, literatura, ciências da natureza, história, música, cinema e televisão, ainda posso ir longe...
Apresentador: Assim é que é. Bem, a questão que se segue é:
Qual destes jogadores do Barreirense não foi convocado para o jogo com o Amora na época de 1982/83?:
A - Sílvio Apolinário
B - Calhau
C - António Carrega
D - Milton dos Santos
Concorrente: Fossem todas como esta. Lembro-me perfeitamente, esta é de caras. Foi o Milton, porque estava com gripe e tinha febre, no treino do meio da semana tinha treinado com muitas limitações e o treinador, o Zé Leopoldo, quis deixá-lo de fora, o que foi muito mal feito porque o Barreirense perdeu o jogo de penalty a 10 m do fim.
Apresentador: Não quer pensar um pouco mais? Já estão 100 euros em jogo.
Concorrente: Ó meu amigo, fossem todas como esta! tenho a certezinha absoluta. E devo dizer que está uma rasteira nesta pergunta, porque o Calhau foi jogador do Barreirense mas esteve toda a época castigado por ter agredido um árbitro.
Apresentador: Sendo assim, vamos bloquear a resposta D? Milton dos Santos?
Concorrente: Vamos a isso!
Apresentador: E a resposta correcta é a... D. Está certo! Manuel você está no bom caminho, vamos jogar para 500 euros. E a pergunta é:
Quem é que inventou o desodorizante com bola redonda na ponta?
A - Fernando Mamede
B - Luciano Pavarotti
C - Nicolau Bryenner
D - Desimir bollredondovsky
Concorrente: Bola redonda sei o que é, que eu farto-me de jogar bilhar lá no clube, agora desodorizante é que eu não sei o que é.
Apresentador: Então senhor Manuel, qual é a sua decisão?
Concorrente: Bom, a A não deve ser porque é um português e os portugueses não inventaram nada importante, e depois Fernando Mamede não era aquele ciclista do Benfica? Acho que era. O Pavarotti não é de certeza porque esse toca num grupo coral. A D tá-se mesmo a ver que é no gozo, bollredondovsky, é uma piada... pensavam que eu caía, não? Por isso só pode ser a C, esse tal Bryenner... tem mesmo nome de inventor... Como o Bayer, o dono da aspirina... não há hipótese.
Apresentador: Lembro-lhe que ainda tem a ajuda do público.
Concorrente: Sim, mas não vou gastá-la. É a C.
Apresentador: Então vou bloquear. E a resposta correcta é a... D. O senhor Manuel perdeu.
Concorrente: Espere lá aí ó senhor Jorge Carrossel, que isto não é assim! Se a minha resposta não tava certa porque é que não pediu ajuda ao público?
Apresentador: Sim, mas eu lembrei-lhe de que podia.…
Concorrente: Não é lembrar, era perguntar ao público e acabou! Quem tinha que perguntar era você, não era eu! Portanto ou me dão o dinheirinho, ou façam-me outra pergunta, ou eu parto esta merda toda à cabeçada!
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
POEMA PARA TI POR CAUSA DO MARTINHO MARQUES
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
Soubesse eu em cada verso
Dizer-te o que os versos não dizem
E em cada palavra ser teu servo
E cada sílaba a tua vertigem.
Pudesse eu em cada verso
Dar-te o que os versos não dão
E cada poema ser um regresso
Ao fogo da nossa paixão.
Sofresse eu em cada verso
A dor que os versos desconhecem
E cada letra fosse o que peço
Quando os teus beijos se despedem.
Coubesse afinal em cada verso
O que em todos os versos não pode caber
Que é este amor sem verso
Para toda a vida até morrer
sexta-feira, janeiro 09, 2004
A nossa fala
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
Palavras que são pétalas debaixo da língua
Palavras que são corações a correr e a sonhar
Palavras que me ofereces nos teus silêncios
Que são os teus olhos a transbordar
Beijos todos a pedirem beijos
Abraços de aço a gritar
Palavras assim tão bonitas
Tão cheias de flores e de perfumes
De cores e cheiros e carne que se lê
Palavras assim tão sentidas
Beijadas, abraçadas, a sorrir, meigas, vivas
Precisam de palavras para quê?
quarta-feira, janeiro 07, 2004
A POLÍTICA, OS INTELECTUAIS E OS OUTROS
A política está a mudar bastante e os políticos também. Este é o tempo em que político significa técnico da governação, barão de influências, fuinha de bastidores, caçador furtivo, negociador de compromissos, funcionário partidário, profissional bem ou mal pago, gestor público, engenheiro público, contabilista público, tecnocrata. Homens sem cultura política, histórica e filosófica. Homens mal-formados. Homens quase analfabetos. Homens simples, raposentos, previsíveis e artificiais. Homens comuns, disciplinados, calculistas, banais, repetitivos. Homens iguais, fardados, mal-educados, mal-humorados, grosseiros, sem elegância, sem brilho, sem fascínio, sem talento.
São assim muitos dos políticos nacionais, gente quase rasca, homens “médios”, quase cidadãos normais. Homens que o povo elege, homens que o povo gosta, homens que o povo percebe, homens quase iguais ao povo.
Por isso, os políticos não gostam dos intelectuais, dos críticos, porque pensam demais, porque criticam demais, porque trabalham pouco, porque não colam cartazes, nem beijam varinas, porque o povo também não gosta deles, porque o povo diz que eles dizem mal de tudo, e porque são indisciplinados, imodestos, impertinentes, complicados, difíceis, e, sobretudo, mutáveis, instáveis, sempre à procura das razões das coisas, sempre à procura de chatice.
Os intelectuais, como António Barreto, Vital Moreira, Pacheco Pereira, José Saramago, etc, são bons e maus ao mesmo tempo, são bons enquanto não tem importantes responsabilidades políticas e partidárias, enquanto aparecem nos tempos de antena, enquanto escrevem preâmbulos, ou cogitam em projectos políticos encomendados e supervisionados, ou enquanto a sua paciência vai permitindo o controlo partidário. Mas são maus e indesejáveis quando escrevem artigos a responder à sua consciência, quando mudam de opinião, quando concordam com os adversários, quando ameaçam a unanimidade, quando se armam em “independentes”.
A política já não serve aos intelectuais e os intelectuais já não servem à política. Por isso, os intelectuais devem exilar-se da política feita de mesquinhez e podridão; devem escrever ensaios e artigos; ir a debates e a colóquios; participar em manifestações; fazer política fora do poder; denunciar e desconstruir os vícios e os labirintos estruturais do poder, recusar a domesticação inevitável do poder sustentado na disciplina intelectual, na unidimensionalidade política, nos fretes desculpabilizadores, nos grotescos arranjos sensacionalistas sublimados pela lógica emotiva do mais básico e manipulador senso-comum. Enfim, não deixarem de ser intelectuais.
E depois temos os outros, muitos, ramificações que cruzam outras ramificações, e algumas pernadas que exibem singularidades. Eis uma breve e pessoal tipologia caricatural:
Os académicos; maduros, sérios, civilizados, eruditos, prudentes, deslocados, desadaptados, ex: Adriano Moreira (ex-CDS)
Os aristocratas; ascetas, elitistas, inflexíveis, imortais, míticos, sacerdotes, ex: Álvaro Cunhal (PCP)
Os popularuchos; dramáticos, peixeirentos, desajeitados, passionais, espertos, barulhentos, provincianos, ex: Valentim Loureiro (PSD)
Os cerebrais; gelados, implacáveis, sisudos, desconfiados, imperturbáveis, lógicos, brilhantes: ex. Garcia Pereira (PCTP-MRPP)
Os pós-modernos; academismo heterodoxo, viajados, mediáticos, oportunistas, instáveis, lúdicos, atentos, ex: Santana Lopes (ex-PPD)
Os excêntricos; arrogantes, autoritários, pimbalhescos, retóricos, demagógicos, esquizofrénicos, infantis, ex: Alberto João Jardim (PSD)
Os precocemente envelhecidos; imitadores de tiques, precocemente calvos, precocemente previsíveis, precocemente adultos, precocementes adeptos de fatos cinzentos, jovens tristes: ex: António Filipe (ex-JCP) e ex aequo Carlos Coelho (ex-JSD)
Os sátiros; oitocentistas, cómicos, ciumentos, maneiristas, gozões, ex: Carlos Candal (PS)
Os jet-set; empresários, elegantes, charmosos, conferencistas, congressistas, risonhos, ricos, simpáticos, interessantes, ex: Pinto Balsemão (PSD)
Os conservadores; católicos, argutos, moralistas, chefes-de-família, oradores, trabalhadores, empenhados, ex: Maria José Nogueira Pinto (PP)
Os operários; lutadores, nervosos, esganiçados, mal-vestidos, briosos, susceptíveis, incansáveis, minuciosos, ex: Odete Santos (PCP).
Os líricos; verdadeiros, tolerantes, imprevisíveis, bonitos, agradáveis, fraternos, sensíveis, convictos, contraditórios, ex: Manuel Alegre (PS)
Os comentadores; verborreicos, opinativos, categóricos, ilusionistas, cínicos, convencidos, vaidosos, ex: Marcelo Rebelo de Sousa (PSD)
Os anacrónicos; moles, nostálgicos, indecisos, esforçados, inverosímeis, ex: Carlos Carvalhas (PCP)
Os freaks; noctívagos, irritáveis, persistentes, descontraídos, actualizados, cosmopolitas, desviantes, ex: Miguel Portas (BE)
A política está a mudar bastante e os políticos também. Este é o tempo em que político significa técnico da governação, barão de influências, fuinha de bastidores, caçador furtivo, negociador de compromissos, funcionário partidário, profissional bem ou mal pago, gestor público, engenheiro público, contabilista público, tecnocrata. Homens sem cultura política, histórica e filosófica. Homens mal-formados. Homens quase analfabetos. Homens simples, raposentos, previsíveis e artificiais. Homens comuns, disciplinados, calculistas, banais, repetitivos. Homens iguais, fardados, mal-educados, mal-humorados, grosseiros, sem elegância, sem brilho, sem fascínio, sem talento.
São assim muitos dos políticos nacionais, gente quase rasca, homens “médios”, quase cidadãos normais. Homens que o povo elege, homens que o povo gosta, homens que o povo percebe, homens quase iguais ao povo.
Por isso, os políticos não gostam dos intelectuais, dos críticos, porque pensam demais, porque criticam demais, porque trabalham pouco, porque não colam cartazes, nem beijam varinas, porque o povo também não gosta deles, porque o povo diz que eles dizem mal de tudo, e porque são indisciplinados, imodestos, impertinentes, complicados, difíceis, e, sobretudo, mutáveis, instáveis, sempre à procura das razões das coisas, sempre à procura de chatice.
Os intelectuais, como António Barreto, Vital Moreira, Pacheco Pereira, José Saramago, etc, são bons e maus ao mesmo tempo, são bons enquanto não tem importantes responsabilidades políticas e partidárias, enquanto aparecem nos tempos de antena, enquanto escrevem preâmbulos, ou cogitam em projectos políticos encomendados e supervisionados, ou enquanto a sua paciência vai permitindo o controlo partidário. Mas são maus e indesejáveis quando escrevem artigos a responder à sua consciência, quando mudam de opinião, quando concordam com os adversários, quando ameaçam a unanimidade, quando se armam em “independentes”.
A política já não serve aos intelectuais e os intelectuais já não servem à política. Por isso, os intelectuais devem exilar-se da política feita de mesquinhez e podridão; devem escrever ensaios e artigos; ir a debates e a colóquios; participar em manifestações; fazer política fora do poder; denunciar e desconstruir os vícios e os labirintos estruturais do poder, recusar a domesticação inevitável do poder sustentado na disciplina intelectual, na unidimensionalidade política, nos fretes desculpabilizadores, nos grotescos arranjos sensacionalistas sublimados pela lógica emotiva do mais básico e manipulador senso-comum. Enfim, não deixarem de ser intelectuais.
E depois temos os outros, muitos, ramificações que cruzam outras ramificações, e algumas pernadas que exibem singularidades. Eis uma breve e pessoal tipologia caricatural:
Os académicos; maduros, sérios, civilizados, eruditos, prudentes, deslocados, desadaptados, ex: Adriano Moreira (ex-CDS)
Os aristocratas; ascetas, elitistas, inflexíveis, imortais, míticos, sacerdotes, ex: Álvaro Cunhal (PCP)
Os popularuchos; dramáticos, peixeirentos, desajeitados, passionais, espertos, barulhentos, provincianos, ex: Valentim Loureiro (PSD)
Os cerebrais; gelados, implacáveis, sisudos, desconfiados, imperturbáveis, lógicos, brilhantes: ex. Garcia Pereira (PCTP-MRPP)
Os pós-modernos; academismo heterodoxo, viajados, mediáticos, oportunistas, instáveis, lúdicos, atentos, ex: Santana Lopes (ex-PPD)
Os excêntricos; arrogantes, autoritários, pimbalhescos, retóricos, demagógicos, esquizofrénicos, infantis, ex: Alberto João Jardim (PSD)
Os precocemente envelhecidos; imitadores de tiques, precocemente calvos, precocemente previsíveis, precocemente adultos, precocementes adeptos de fatos cinzentos, jovens tristes: ex: António Filipe (ex-JCP) e ex aequo Carlos Coelho (ex-JSD)
Os sátiros; oitocentistas, cómicos, ciumentos, maneiristas, gozões, ex: Carlos Candal (PS)
Os jet-set; empresários, elegantes, charmosos, conferencistas, congressistas, risonhos, ricos, simpáticos, interessantes, ex: Pinto Balsemão (PSD)
Os conservadores; católicos, argutos, moralistas, chefes-de-família, oradores, trabalhadores, empenhados, ex: Maria José Nogueira Pinto (PP)
Os operários; lutadores, nervosos, esganiçados, mal-vestidos, briosos, susceptíveis, incansáveis, minuciosos, ex: Odete Santos (PCP).
Os líricos; verdadeiros, tolerantes, imprevisíveis, bonitos, agradáveis, fraternos, sensíveis, convictos, contraditórios, ex: Manuel Alegre (PS)
Os comentadores; verborreicos, opinativos, categóricos, ilusionistas, cínicos, convencidos, vaidosos, ex: Marcelo Rebelo de Sousa (PSD)
Os anacrónicos; moles, nostálgicos, indecisos, esforçados, inverosímeis, ex: Carlos Carvalhas (PCP)
Os freaks; noctívagos, irritáveis, persistentes, descontraídos, actualizados, cosmopolitas, desviantes, ex: Miguel Portas (BE)
FAMA
Eu estava nervoso. Era natural, eu queria realizar um sonho. O grande sonho da minha vida. Por ele eu faria tudo. Por ele eu estava a fazer tudo. Por ele eu estava disposto a tudo. Por isso eu estava nervoso. Aproximava-se a minha vez. Eu tinha que mostrar que tinha talento, que era capaz. Que era capaz de vencer a timidez, de me soltar, de não chorar, de não me enganar.
Cantei uma música do Carlos Paião, uma bonita, e acho que cantei bem.
Mas o júri disse-me que eu era muito gordo, que parecia um moinho, apesar de ter cantado bem, sem desafinar.
Não sei se foi para fazer justiça ao Carlos Paião, ou para homenagear os gordos, ou para me sentir compensado por ter perdido o emprego como consequência destas provas, ou para mostrar em directo aos rapazes da minha aldeia que quem canta Carlos Paião não deixa de ser um homem com eles no sítio. Não sei se foi por me terem roubado um sonho tão bonito, o sonho de ser famoso e aparecer nas capas das revistas e na televisão.
Não sei se foi apenas por instinto que pus o microfone dentro do estômago de um dos membros do júri, e pus a mesa sentada na cabeça de outro dos membros do júri, e pus a cabeça de outro membro do júri pendurada no candeeiro.
Não estava nervoso. E como que por milagre, o sonho realizou-se. Fui campeão de audiências, saí em todas as revistas da especialidade, fui convidado para participar no festival da canção, ofereceram-me um tratamento de emagrecimento, e quando sair da prisão já tenho um contrato assinado para um programa de televisão só meu.
Eu estava nervoso. Era natural, eu queria realizar um sonho. O grande sonho da minha vida. Por ele eu faria tudo. Por ele eu estava a fazer tudo. Por ele eu estava disposto a tudo. Por isso eu estava nervoso. Aproximava-se a minha vez. Eu tinha que mostrar que tinha talento, que era capaz. Que era capaz de vencer a timidez, de me soltar, de não chorar, de não me enganar.
Cantei uma música do Carlos Paião, uma bonita, e acho que cantei bem.
Mas o júri disse-me que eu era muito gordo, que parecia um moinho, apesar de ter cantado bem, sem desafinar.
Não sei se foi para fazer justiça ao Carlos Paião, ou para homenagear os gordos, ou para me sentir compensado por ter perdido o emprego como consequência destas provas, ou para mostrar em directo aos rapazes da minha aldeia que quem canta Carlos Paião não deixa de ser um homem com eles no sítio. Não sei se foi por me terem roubado um sonho tão bonito, o sonho de ser famoso e aparecer nas capas das revistas e na televisão.
Não sei se foi apenas por instinto que pus o microfone dentro do estômago de um dos membros do júri, e pus a mesa sentada na cabeça de outro dos membros do júri, e pus a cabeça de outro membro do júri pendurada no candeeiro.
Não estava nervoso. E como que por milagre, o sonho realizou-se. Fui campeão de audiências, saí em todas as revistas da especialidade, fui convidado para participar no festival da canção, ofereceram-me um tratamento de emagrecimento, e quando sair da prisão já tenho um contrato assinado para um programa de televisão só meu.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Sem escrúpulos
Ela entrou sem que eu desse conta. É a minha repetida estupidez de dar as chaves sem ter a certeza que aquela mulher é muito diferente das outras que levaram coisas como o estojo da barba. Para quê levar o estojo da barba? Qual o sentido? E nesta a probalidade aumenta, porque deixa crescer os pêlos nas axilas. Facto que é bem diferente do que estou acostumado a ver nas outras, mas é também a certeza, tal qual as outras, que não se vai definitivamente sem surrupiar lá de casa qualquer coisa de memorável, como uma ficha tripla ou um pano da louça, pois eu já reparei como ela olha deliciada para aquele cinzeiro de lata que o homem do talho me ofereceu. E sairá sem que eu dê conta. Nem puxará o autoclismo nessa manhã. Nem usará a escova de dentes que eu lhe ofereci. Nem terá o pudor ético do adeus escrito a baton no espelho da casa de banho. Nem se lembrará de deixar as chaves perto do local onde estava o porta-moedas.
Mas eu gosto de dar as chaves, faz parte de mim, da minha natureza. Por isso, acho que me resta apenas inaugurar um movimento social que defenda a pena de morte para as ladras fetichistas. Mais valia que me roubassem o coração, isso eu ainda perdoaria, e até agradecia, pois já não me custaria nada, já não sofreria com a falta da cassete de vídeo. Mas também que raio de mania a minha de gravar os jogos da selecção por cima dos filmes românticos, dos filmes que elas gostam tanto.
Mas a esta agora não lhe dei a chaves, queria dizer-vos. Por isso, continuo sem perceber porque é que me arrombou a porta no fim-de-semana em que fui visitar o meu tio diabético, e me roubou, sem sentido nenhum, o balde do lixo.
Ela entrou sem que eu desse conta. É a minha repetida estupidez de dar as chaves sem ter a certeza que aquela mulher é muito diferente das outras que levaram coisas como o estojo da barba. Para quê levar o estojo da barba? Qual o sentido? E nesta a probalidade aumenta, porque deixa crescer os pêlos nas axilas. Facto que é bem diferente do que estou acostumado a ver nas outras, mas é também a certeza, tal qual as outras, que não se vai definitivamente sem surrupiar lá de casa qualquer coisa de memorável, como uma ficha tripla ou um pano da louça, pois eu já reparei como ela olha deliciada para aquele cinzeiro de lata que o homem do talho me ofereceu. E sairá sem que eu dê conta. Nem puxará o autoclismo nessa manhã. Nem usará a escova de dentes que eu lhe ofereci. Nem terá o pudor ético do adeus escrito a baton no espelho da casa de banho. Nem se lembrará de deixar as chaves perto do local onde estava o porta-moedas.
Mas eu gosto de dar as chaves, faz parte de mim, da minha natureza. Por isso, acho que me resta apenas inaugurar um movimento social que defenda a pena de morte para as ladras fetichistas. Mais valia que me roubassem o coração, isso eu ainda perdoaria, e até agradecia, pois já não me custaria nada, já não sofreria com a falta da cassete de vídeo. Mas também que raio de mania a minha de gravar os jogos da selecção por cima dos filmes românticos, dos filmes que elas gostam tanto.
Mas a esta agora não lhe dei a chaves, queria dizer-vos. Por isso, continuo sem perceber porque é que me arrombou a porta no fim-de-semana em que fui visitar o meu tio diabético, e me roubou, sem sentido nenhum, o balde do lixo.
Provas de amor
Tu estavas doente, tinhas febre, estavas de atestado médico, podias levantar-te quando te sentisses em condições. Eu tinha aulas às oito da manhã, e não podia faltar, e já nem sei porquê, tinha-te dito na noite anterior que adorava os ovos mexidos que a minha mãe me fazia ao pequeno-almoço e que tu nunca me fazias ovos mexidos. Disse por dizer, talvez porque me apetecesse ovos mexidos nessa altura, pois à noite também me sabiam bem.
Tu estavas doente, com gripe, cheia de arrepios de frio, e mesmo assim, enquanto eu tomava duche, desceste à cozinha e fizeste-me ovos mexidos às sete da manhã, quando devias estar deitada, aconchegada e quentinha. Era eu que devia depois do duche trazer-te qualquer coisa à cama e fazer-te um carinho para te pores melhor.
Fiquei tão irritado quando te vi meio a cambalear na cozinha com a frigideira trémula na mão, mas só te disse: "ó minha querida, estás tão doentinha e saíste da cama para me fazeres uns ovinhos". Tu não me disseste nada, só me sorriste com um sorriso de mãe, e ficaste a ver-me comer. Eu comi e só desejava que não me fizesses a pergunta que acabaste por fazer. "Então, estão bons?". "Estão óptimos amorzinho, óptimos". Estavam horríveis, intragáveis, foram os piores ovos mexidos que comi, até sabiam a tudo menos a ovos mexidos, o que é quase impossível de acontecer, porque os ovos mexidos é a coisa mais fácil de fazer, e por muito mal que saiam, sabem sempre a ovos mexidos. Mas ficaste tão contente com a minha resposta, tão feliz. "Ainda bem amor, ainda bem". Acho que foi o carinho mais carinhoso que te podia ter feito.
Quando nesse dia voltei do trabalho já estavas boa, já não tinhas febre, eu até fiquei surpreendido. "Foi por teres gostado dos meus ovos mexidos". Ainda bem, valeu a pena, pois senti como uma queimadura na carne como gostas de mim, como me amas. E como eu te amo, apesar de, a partir daí, comer quase todos os dias, os piores ovos mexidos do mundo.
Tu estavas doente, tinhas febre, estavas de atestado médico, podias levantar-te quando te sentisses em condições. Eu tinha aulas às oito da manhã, e não podia faltar, e já nem sei porquê, tinha-te dito na noite anterior que adorava os ovos mexidos que a minha mãe me fazia ao pequeno-almoço e que tu nunca me fazias ovos mexidos. Disse por dizer, talvez porque me apetecesse ovos mexidos nessa altura, pois à noite também me sabiam bem.
Tu estavas doente, com gripe, cheia de arrepios de frio, e mesmo assim, enquanto eu tomava duche, desceste à cozinha e fizeste-me ovos mexidos às sete da manhã, quando devias estar deitada, aconchegada e quentinha. Era eu que devia depois do duche trazer-te qualquer coisa à cama e fazer-te um carinho para te pores melhor.
Fiquei tão irritado quando te vi meio a cambalear na cozinha com a frigideira trémula na mão, mas só te disse: "ó minha querida, estás tão doentinha e saíste da cama para me fazeres uns ovinhos". Tu não me disseste nada, só me sorriste com um sorriso de mãe, e ficaste a ver-me comer. Eu comi e só desejava que não me fizesses a pergunta que acabaste por fazer. "Então, estão bons?". "Estão óptimos amorzinho, óptimos". Estavam horríveis, intragáveis, foram os piores ovos mexidos que comi, até sabiam a tudo menos a ovos mexidos, o que é quase impossível de acontecer, porque os ovos mexidos é a coisa mais fácil de fazer, e por muito mal que saiam, sabem sempre a ovos mexidos. Mas ficaste tão contente com a minha resposta, tão feliz. "Ainda bem amor, ainda bem". Acho que foi o carinho mais carinhoso que te podia ter feito.
Quando nesse dia voltei do trabalho já estavas boa, já não tinhas febre, eu até fiquei surpreendido. "Foi por teres gostado dos meus ovos mexidos". Ainda bem, valeu a pena, pois senti como uma queimadura na carne como gostas de mim, como me amas. E como eu te amo, apesar de, a partir daí, comer quase todos os dias, os piores ovos mexidos do mundo.
Apetecia-me entrar em ti. Ficar lá dentro quando tu tomasses banho e mexesses nas mamas e no corpo todo, sentir-te com as tuas próprias mãos e maltratar-te com as tuas próprias mãos, e sentirmos ao mesmo tempo, num só, como se não pudesses fugir da dor e do prazer que nos envolvia da mesma maneira e com a mesma intensidade, sabermos nesse instante o que cada um sentia do outro que sentia como nós, o único momento de verdade, afinal.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Ficar dentro de ti quando eu te dissesse que não vales nada e que és tudo para mim.
E pôr-te a chorar, mesmo que não quisesses, e pôr-te a amar mesmo que não quisesses e pôr-te a beijar o chão mesmo que não quisesses. Seria certamente a única maneira de sentires o que sou, de saberes quem sou.
Apetecia-me morrer em ti, e depois libertar-me de ti como quem se evade da prisão mais brutal e tortuosa, rir-me de ti como quem clama triunfo sobre um patrão desumano.
Soubesse eu os dias em que não és tu em cada sílaba, para ocupar o teu corpo e não te deixar regressar, para expulsar-te para sempre do meu destino que é o teu refém.
Soubesse eu os dias em que és tu apenas numa sílaba, e nesse precioso segundo de autenticidade, arrancar com força o deslize, e plantá-lo dentro de mim, para sofrer comigo todos os teus dias em que não vens, mesmo quando gritas tão falsa e maldita, que eu estou dentro de ti.
Tu e eu
Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo
vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
.........
Assaltas-me o corpo cada vez que me sinto corpo perdido quando não estás
corpo em labareda e cheiras a tudo o que dizes de olhos fechados
abertos de boca cerrada a lamberes-me de palavras doces para mim,
sonho-te essa fervura de mil pegadas dentro da minha pele
e o medo que desce aos ventres atropelados sem medo,
o espaço acaba sempre no prolongamento escuro dos braços
aninhados escondidos apertados na toca de lã
e o tempo vem ruidoso dizer-nos adeus
quando não chegámos
a sentir o tempo
vejo agora a tua barriguinha quente
sabe-me a tua língua ainda a bebida nua
.........
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