lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.

domingo, fevereiro 29, 2004

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O risco

João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

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Declaração de amor
(um rapaz e uma rapariga estão sentados à mesa de um café no Alentejo)

Magda (com um ramo de flores na mão): Mas porquê as flores Luís? Eu nem faço anos nem nada. O que é que te deu? Nem sabia que gostavas de flores. Se passa por aqui o Rui vai ficar fulo, sabes que ele tem ciúmes dos meus amigos.
Luís: Apeteceu-me oferecer flores, é crime? Fui hoje ao cemitério a Évora ver a campa do meu avô e achei que ele tinha flores a mais. Não percebo porque é que um morto precisa de flores. E sobretudo o meu avô, que a única flor que gostava era couve-flor cozida com bacalhau.
Magda (repugnada, largando as flores): Tu tiraste as flores da campa do teu avô para me ofereceres? Francamente. Tu não estás bom da cabeça.
Luís: É que o dinheiro só dava para uma coisa, ou as flores ou isto que te comprei (oferece um embrulho à Magda).
Magda (enternecida): Tu estás louco! Mas o que é que se passa contigo? Para quê tantas prendas? O que é que te deu?
Luís: Vá abre, despacha-te, espero que gostes.
(Magda desembrulha a prenda, que é uma cassete de vídeo virgem)
Magda (à toa): Uma cassete vídeo sem nada?...
Luís: Sim, para gravares o Portugal-Estónia. Não tem nada gravado, estás a ver? Ainda tem o plástico e tudo.
Magda (confusa): Pois... ainda tem o plástico... é natural... ainda não foi gravada.
Luís (entusiasmado): Gostaste?
Magda: Sim... claro... é uma prenda... original.
Luís: Ainda bem que gostaste. Tive para comprar um regador para as flores em vez disso, mas era muito caro, e de plástico já não havia.
Magda: Fizeste bem.. eu prefiro a cassete vídeo.. (mudando de assunto) Então e conta lá, o que é que tens feito?
Luís: Olha, tenho trabalhado na oficina do meu tio ali ao pé de Reguengos, e tenho andado no mirc, na internet, aquilo é o máximo, digitalizei uma fotografia tua e tenho enviado para toda a gente a dizer que és minha amiga.
Magda (em pânico): Tens o quê???
Luís: Sim, eu logo vi que ias gostar
Magda: Gostar????
Luís: Sim, aquilo é mesmo engraçado, ontem recebi a tua foto de um sítio para onde tinha enviado, mas agora montaram a tua cabeça no corpo de uma mulher nua, está muito gira.
Magda: Jura que isso não é verdade!
Luís: É verdade sim, e eu gostei tanto que a enviei outra vez para toda a gente, só que agora escrevi por cima: "sou boa mas não é para os vossos dentes". Estava inspirado, ein?
Magda: O quê???? Eu não acredito!!! Elimina isso imediatamente!
Luís: Eliminar para quê?? Até tive muita gente a responder e a perguntar por ti, onde é que moravas, se convivias em gabinetes, se ias ao domicílio.. essa do domicílio é que eu não percebi. Por isso achei bem dar o teu número de telemóvel, não fiz mal, pois não?
Magda: O quê??????? Tu és estúpido! Mas és idiota ou quê?
Luís (sem perceber): Mas não gostaste? Pensei que ias gostar. Eu fiz isto porque gosto de ti
Magda: Gostas de mim??
Luís: Sim, tudo isto era também para te dizer que gosto de ti, que gostava muito que deixasses o Rui e que namorasses comigo.
Magda: Mas tu és apenas meu amigo, eu não sinto nada mais por ti.
Luís: Não faz mal, com o tempo gostas, e eu só penso em ti, tenho sonhos eróticos contigo, imagino a fazeres-me coisas, tenho fantasias contigo..
Magda (irritada): O quê?? que fantasias???
Luís: Bem.. agora não me lembro bem... mas tenho isso tudo escrito e enviei também pela internet, se quiseres eu mostro-te.
Magda: O quê?? vai-te tratar anormal!!! (levanta-se e sai)
Luís (cabisbaixo e triste): Eu só queria dizer que gosto muito dela..


Corre o pano

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

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Um casal acusa a Internet de ser a responsável pelo seu divórcio, mas também a felicita por ter possibilitado a reconciliação. O marido e a mulher frequentavam o mesmo chat-room, sem que conhecessem a identidade real um do outro, que era omitida durante as conversas. Ambos disseram que eram solteiros e foram-se interessando um pelo outro, até que marcaram um encontro para se conhecerem pessoalmente. Quando teve lugar o adultério simultâneo, o casal insultou-se mutuamente e ambos pediram o divórcio. Só que continuaram a conversar na Internet de forma apaixonada, e marcaram um novo encontro onde se reconciliaram e voltaram a casar.

domingo, fevereiro 08, 2004

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Sabes que detesto esse cheiro que trazes para eu detestar
Sabes que amo esse cheiro que não trazes para eu não amar
Sabes que detesto não amar esse cheiro
Que trazes
Para eu amar
Detestar
A primeira vez

(duas raparigas sentadas à mesa de um café numa localidade do Alentejo)
Ana: É pá! Não posso beber mais cerveja, faz-me barriga, e eu quero ver se este ano desço até aos 130 quilos.
Luísa: Pois eu mesmo magra ninguém me pega, não sei o que é que se passa, agora até tenho feito o bigode e tudo.
Ana: Isto é tudo uma questão de fases. Olha para mim agora, até tenho gajos bonitos atrás de mim, e ricos e tudo!
Uma mulher precisa de ter charme, saber falar, eu sempre disse que o 9º ano ia servir-me para qualquer coisa..
Luísa: O meu problema é que me corto quando chega a altura de... tu sabes. E esta coisa espalha-se. E não sabem eles que sou virgem, senão apedrejavam-me. Tenho muita vontade, mas tenho muito receio também.
Ana: Tu és como muitas, fazem disso um bicho de sete cabeças... e a verdade é que o bicho só tem uma cabeça..
(riem as duas)
Luísa: Tenho medo... há raparigas que ficam traumatizadas.. aquilo pode doer muito, a pessoa pode perder os sentidos só com a dor... ou entrar em coma.. e há quem sangre quase até à morte.
Ana: Que exagero! Quem te ouve pensa que estás a falar na matança do porco. Eu então, acho que nem uma pinga de sangue deitei.
Luísa: Achas? Então? Não tens a certeza?
Ana: Não! Estávamos os dois com uma camada que era obra, era de noite, e sabes ao que é que eu me limpei? Nem vais acreditar.
Luísa: A quê?
Ana: À caniche da tua tia!
Luísa: À Fofinha????
Ana: Essa mesmo!
Luísa: Agora é que eu percebo porque é que ela nunca quer vir para o pé de mim quando eu estou com o período.
Ana: A sério??
Luísa: Juro-te.
Ana: Então se calhar sangrei um bocadinho..
Luísa (lembrando-se): Péra aí! Não me digas que fui na altura em que a minha tia disse que tinham pintado a Fofinha de vermelho?
Ana: Aí há dois anos mais ou menos?
Luísa: Sim, por essa altura.
Ana: Bem, então se calhar sangrei mais que a porca que matámos no Natal.. Mas olha, eu não dei por nada.
Luísa: Mas como é que isso aconteceu.
Ana: Eu acho que já te tinha dito. Foi numa noite de cinema na recreativa, eu andava com o Chico, tínhamos bebido umas grades de minis antes do cinema, fomos cá para trás, não havia quase ninguém, era de Verão, ele deita-se no chão de barriga para cima a descansar, e quando o vou mandar calar, para deixar de ressonar, vejo que estava com ele feito. Oh, tá bem tá, nem é tarde nem é cedo, desaperto-lhe a braguilha e sento-me em cima dele. Ele nem deu por nada, mas eu garanto-te que nunca foi tão bom com ele como daquela primeira vez?
Luísa: Então porquê?
Ana: Porque depois disso nunca mais quis que eu ficasse por cima! E depois disso, cada vez que fazíamos, tinha que gramar o fedor que ele deitava dum dente podre, e depois babava-se e tudo.. até pensei em lhe pôr um bibe..
Luísa: O Quim está farto de pedir-me, mas eu não sei... tenho medo... e tu que já andaste com ele, o que é que achas?
Ana: Acho que não vai doer-te nem vais sangrar nada..
Luísa: Então?
Ana: Porque a única vez que conseguiu fazer, depois de milhares de tentativas, parecia um palito de gelatina.. e derreteu-se em 30 segundos.
Luísa: O que é que me aconselhas? Ando com uma vontade que nem imaginas.
Ana: Olha amiga, não escolhas homens com muitos estudos, nem que usem óculos, só querem falar e falar e depois nada. A nível sexual, quando mais próximos das bestas melhor!
Luísa (reparando que passa alguém na rua): Olha, lá vai o meu primo que trabalha no Monte da Perdida.
Ana: O que é que ele faz?
Luísa: Limpa a merda dos cavalos.
Ana: Estás à espera do quê?

Fecha o plano.