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DETAILS
Há coisas em que a coisa importante são os pormenores. Mesmo uma mãe, por quem nutrimos um afecto que nos parece incondicional, não seria a mesma mãe se fosse para a praia com um bikini fio dental, ou se comprasse o cd do Valentino. Quem tomaria Jesus Cristo pelo mesmo se se descobrisse num texto da época que ele fazia concursos de arrotos com os apóstolos após cada refeição?
Para o bem e para o mal, os pormenores arrasam certezas sentimentais e ideológicas e impelem-nos para loucuras inacreditáveis.
Podemos estar apaixonadíssimos por uma mulher, o seu conjunto e os seus pormenores são deliciosos e de repente descobrimos que ela nos quer enfiar o dedo no rabo cada vez que fazemos amor. Ou nos tornados devotos ou cortamos-lhe as mãos com um machado.
Odiamos uma prima por todas as razões do mundo e mais algumas, e quando se tornava previsível que ela desse uma gargalhada de ignorância ou encolhesse os ombros com enfado, sai-se com uma citação de Kierkegaard, até com oportunidade. Ou explicamos aos tios que os laços de consanguinidade são uma cena medieval e mesmo que não sejam podem confirmar que estamos a fazer sexo seguro com a filha, ou, minados pela raiva, começamos a ler Kierkegaard para nos tornarmos competitivos em ocasiões futuras.
Damos tudo por um amigo de infância que já se sacrificou por nós em situações tão delicadas que nós nunca nos sacrificaríamos por ele, e no meio de uma discussão fundamental sobre futebol, em que nos sentimos capazes de trocar o emprego e a família por um argumento convincente, ele interrompe para perguntar com naturalidade assassina: «o que é que é isso de automatismos?». Ou lhe garantimos fama de maricas ou nos sentimos autorizados a atacar a sua bela mulher.
Somos de um partido desde que o nosso pai nos ensinou a sigla respectiva como a terceira palavra mais importante do léxico, logo a seguir a «boazona» e «bagaço». Aprendemos a acreditar nas suas virtudes e a respeitar os seus defeitos, e nas vésperas de uma eleição decisiva, aparece o Cláudio Ramos do Big-Brother Famosos a dizer que também vai votar como nós. Ou puxamos fogo ao centro de trabalho da nossa área de residência, ou havemos de encontrar um dia o Cláudio Ramos na rua, sozinho e à noite.
Eu agora ia dizer bem da terra onde vivo, mas acabo de ver o presidente da Câmara a mijar contra um daqueles contentores verdes do lixo.
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
quinta-feira, abril 22, 2004
quarta-feira, abril 21, 2004
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Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
segunda-feira, abril 12, 2004
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um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
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