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ops!.. alguém me informa como se varre esta porcaria do ciberespaço??
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
sexta-feira, maio 28, 2004
segunda-feira, maio 03, 2004
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Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
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