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ops!.. alguém me informa como se varre esta porcaria do ciberespaço??
lamentos, escárnios, azedumes, alarvidades, escarros, queimaduras e espetadas de carne viva. digressões uterinas, filosofices risíveis, socratismos, estilhaços novelistas, lirismos, delírios, apalpanços e linguados. salada russa de antónio revez, e podem protestar e contribuir em revezius@hotmail.com.
sexta-feira, maio 28, 2004
segunda-feira, maio 03, 2004
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Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
Concursos fatais
Osvaldo vivia com a mulher há quase cinquenta anos, a mulher vivia com o Osvaldo há quase cinquenta anos. Eram marido e mulher há quase cinquenta anos. Estavam, portanto, casados há quase cinquenta anos. Meio século de vida em comum. Nunca houve entre eles uma discussão mais grave ou qualquer dissensão ou discórdia por causa da casa ou dos filhos, da empregada doméstica ou do vício de sessenta anos do Osvaldo (Osvaldo tinha oitenta), os concursos. Concursos de qualquer espécie, mas especialmente os televisivos. Tinha sido também num concurso promovido pela comissão de festas da terra que o Osvaldo conhecera a sua futura mulher.
Quase cinquenta anos de vida a dois, sem sobressaltos e sem atritos. Quase cinquenta anos de companheirismo e ajuda mútua, de um profundo conhecimento das características de cada um, dos seus defeitos e virtudes, dos seus caprichos e manias. Osvaldo conhecia melhor a mulher que a si mesmo, a mulher não conhecia melhor ninguém que o Osvaldo.
Osvaldo nunca tinha ganho nenhum concurso televisivo porque nunca tinha sido seleccionado ou sorteado ou escolhido para nenhum concurso, apesar de concorrer a todos os concursos.
Até domingo passado. Sim, há quinze dias atrás telefonaram ao Osvaldo da produção do concurso "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes". Um daqueles concursos em que uma equipa de dois concorrentes tenta adivinhar as preferências, hábitos e comportamentos um do outro. Era o predilecto do Osvaldo, e aquele em que ele sabia que podia ganhar com grande facilidade. Ele conhecia a mulher há quase sessenta anos, se somarmos mais dez de namoro. E ela a mesma coisa. Osvaldo tinha gasto praticamente todo dinheiro da sua reforma em postais e selos para aquele concurso, mas tinha valido a pena, calhou-lhe a ele e à sua esposa. Depois do telefonema da televisão, Osvaldo e a mulher comemoraram com antecedência o que iriam ganhar no concurso. Dez mil euros era o prémio. Por isso, durante a semana que antecedeu o dia do concurso, negociaram com o senhor Armindo da loja de electrodomésticos e encheram a casa de coisas novas, entre as quais uma televisão topo de gama, mais um frigorífico que tinha também uma parte de congeladora, e uma aparelhagem mais potente porque eles já não ouviam muito bem. Passaram um cheque pré-datado. Era apenas uma formalidade, o prémio estava no papo.
E chegou o domingo à noite. Das vinte perguntas só podiam errar uma. O Osvaldo, por um daqueles lapsos que acontecem por sabermos as coisas bem demais, tinha respondido que a mulher tinha ainda dezoito dentes originais, um erro também motivado pela difícil contabilidade das "pontes" e dos "pivots". A mulher acertou, também era fácil, desde os cinquenta anos que Osvaldo só tinha seus dois dentinhos à frente.
Era a última pergunta. Não podiam falhar. O apresentador fez suspense e lançou a questão: Qual é a primeira coisa que fariam se ganhassem o prémio? Osvaldo nem pestanejou, era canja. A mulher concentrou-se e escreveu a resposta. O apresentador pediu então que mostrassem o que tinham escrito. Primeiro a mulher. Ela mostrou. "Pagar ao senhor Armindo". Depois o Osvaldo. Ele não sabia ainda a resposta que a mulher tinha dado. Por isso exibiu sorridente e confiante a sua resposta: "Enviar muitos postais para o concurso Vale Tudo Por Dinheiro".
O casamento não sobreviveu ao dilema entre pagar ao senhor Armindo em suaves prestações e enviar postais para três novos concursos televisivos.
O divórcio, litigioso, custou ao Osvaldo menos postais para vários concursos. Mas não lamenta nada, a culpa não era sua, a honestidade é coisa tão óbvia e evidente que nem nos lembramos, e a sua mulher sabia que ele tinha este vício dos concursos há quase setenta anos, se somarmos aquele concurso do "Verdade ou Mentira", que ele perdera no fim da escola primária.
quinta-feira, abril 22, 2004
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DETAILS
Há coisas em que a coisa importante são os pormenores. Mesmo uma mãe, por quem nutrimos um afecto que nos parece incondicional, não seria a mesma mãe se fosse para a praia com um bikini fio dental, ou se comprasse o cd do Valentino. Quem tomaria Jesus Cristo pelo mesmo se se descobrisse num texto da época que ele fazia concursos de arrotos com os apóstolos após cada refeição?
Para o bem e para o mal, os pormenores arrasam certezas sentimentais e ideológicas e impelem-nos para loucuras inacreditáveis.
Podemos estar apaixonadíssimos por uma mulher, o seu conjunto e os seus pormenores são deliciosos e de repente descobrimos que ela nos quer enfiar o dedo no rabo cada vez que fazemos amor. Ou nos tornados devotos ou cortamos-lhe as mãos com um machado.
Odiamos uma prima por todas as razões do mundo e mais algumas, e quando se tornava previsível que ela desse uma gargalhada de ignorância ou encolhesse os ombros com enfado, sai-se com uma citação de Kierkegaard, até com oportunidade. Ou explicamos aos tios que os laços de consanguinidade são uma cena medieval e mesmo que não sejam podem confirmar que estamos a fazer sexo seguro com a filha, ou, minados pela raiva, começamos a ler Kierkegaard para nos tornarmos competitivos em ocasiões futuras.
Damos tudo por um amigo de infância que já se sacrificou por nós em situações tão delicadas que nós nunca nos sacrificaríamos por ele, e no meio de uma discussão fundamental sobre futebol, em que nos sentimos capazes de trocar o emprego e a família por um argumento convincente, ele interrompe para perguntar com naturalidade assassina: «o que é que é isso de automatismos?». Ou lhe garantimos fama de maricas ou nos sentimos autorizados a atacar a sua bela mulher.
Somos de um partido desde que o nosso pai nos ensinou a sigla respectiva como a terceira palavra mais importante do léxico, logo a seguir a «boazona» e «bagaço». Aprendemos a acreditar nas suas virtudes e a respeitar os seus defeitos, e nas vésperas de uma eleição decisiva, aparece o Cláudio Ramos do Big-Brother Famosos a dizer que também vai votar como nós. Ou puxamos fogo ao centro de trabalho da nossa área de residência, ou havemos de encontrar um dia o Cláudio Ramos na rua, sozinho e à noite.
Eu agora ia dizer bem da terra onde vivo, mas acabo de ver o presidente da Câmara a mijar contra um daqueles contentores verdes do lixo.
DETAILS
Há coisas em que a coisa importante são os pormenores. Mesmo uma mãe, por quem nutrimos um afecto que nos parece incondicional, não seria a mesma mãe se fosse para a praia com um bikini fio dental, ou se comprasse o cd do Valentino. Quem tomaria Jesus Cristo pelo mesmo se se descobrisse num texto da época que ele fazia concursos de arrotos com os apóstolos após cada refeição?
Para o bem e para o mal, os pormenores arrasam certezas sentimentais e ideológicas e impelem-nos para loucuras inacreditáveis.
Podemos estar apaixonadíssimos por uma mulher, o seu conjunto e os seus pormenores são deliciosos e de repente descobrimos que ela nos quer enfiar o dedo no rabo cada vez que fazemos amor. Ou nos tornados devotos ou cortamos-lhe as mãos com um machado.
Odiamos uma prima por todas as razões do mundo e mais algumas, e quando se tornava previsível que ela desse uma gargalhada de ignorância ou encolhesse os ombros com enfado, sai-se com uma citação de Kierkegaard, até com oportunidade. Ou explicamos aos tios que os laços de consanguinidade são uma cena medieval e mesmo que não sejam podem confirmar que estamos a fazer sexo seguro com a filha, ou, minados pela raiva, começamos a ler Kierkegaard para nos tornarmos competitivos em ocasiões futuras.
Damos tudo por um amigo de infância que já se sacrificou por nós em situações tão delicadas que nós nunca nos sacrificaríamos por ele, e no meio de uma discussão fundamental sobre futebol, em que nos sentimos capazes de trocar o emprego e a família por um argumento convincente, ele interrompe para perguntar com naturalidade assassina: «o que é que é isso de automatismos?». Ou lhe garantimos fama de maricas ou nos sentimos autorizados a atacar a sua bela mulher.
Somos de um partido desde que o nosso pai nos ensinou a sigla respectiva como a terceira palavra mais importante do léxico, logo a seguir a «boazona» e «bagaço». Aprendemos a acreditar nas suas virtudes e a respeitar os seus defeitos, e nas vésperas de uma eleição decisiva, aparece o Cláudio Ramos do Big-Brother Famosos a dizer que também vai votar como nós. Ou puxamos fogo ao centro de trabalho da nossa área de residência, ou havemos de encontrar um dia o Cláudio Ramos na rua, sozinho e à noite.
Eu agora ia dizer bem da terra onde vivo, mas acabo de ver o presidente da Câmara a mijar contra um daqueles contentores verdes do lixo.
quarta-feira, abril 21, 2004
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Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
Gente fina
A D. Margarida Vasconcelos era para todos nós a "tia". A tia era linda de morrer, lindérrima. Um magnífico produto. Uma constelação de aço inoxidável e metais preciosos e também perfeita nostalgia de diamantes africanos. Era como um cavalo de porcelana, ou um bidé dourado banhado a ouro verdadeiro, ou um faqueiro caro de marca registada. Qualquer coisa de irrepreensível. Uma coisa mesmo sofisticada. A elegância. E finíssima, nos dentes alvos a mostrarem-se com contenção, e as mãos? Ai as mãos! Faziam desenhos de espiritualidade no espaço e depois poisavam como planadores na anca ou deslizavam como seda pelos cabelos. E a musicalidade da voz? De uma seriedade embaraçante, quase severa a afirmar-se por entre o silêncio das outras vozes rendidas àquele luxo sonoro. E no olhar sossegavam as vidas de muitas vidas de sabedoria e gentileza. Mas o que mais me ofuscava era a sua roupa, de deliciosas combinações cromáticas, uma equilibrada colagem de texturas, uma doseada temperatura dos tecidos, tudo se conjugava com a sua pele, com as suas palavras, com os seus movimentos. Eu ficava no sofá a vê-la esplêndida, a conversar com os convidados e a beijar suavemente o seu Porto.
E à mesa era uma delícia, um hino aos modos educados e cuidados. Os talheres pareciam bisturis no seu rigor cirúrgico e os maxilares em câmara lenta dançavam acordes sinfónicos. Quando me sentavam perto de si, ela era a minha refeição, era a tia que me deleitava, era ela que eu saboreava, o seu espectáculo de requinte e boas maneiras.
Ela era para mim a referência máxima, uma deusa perfeita do bom gosto e da sofisticação, uma irrealidade intocável e sagrada, o meu guia espiritual e protocolar. Estarrecia de fascínio em cada aparição sua nas festas que a mamã organizava na nossa quinta em Sintra; era capaz de tudo só para vê-la uns instantes a desfilar triunfante na calçada do pátio, ao encontro das roseiras e do seu perfume. Era o meu maior delírio visual.
Por isso, abomino todas as divindades e criaturas sobrenaturais e outras forças poderosas, por terem permitido que a tia me tivesse escolhido naquela noite para levá-la a casa, pois preferia ter morrido logo ali do coração, como ia morrendo, a suportar agora esta angústia de quase orfandade, que me atormenta a toda a hora e em todo o lado.
Preferia sucumbir à mais vil provação, do que ver a tia meter à boca uma garrafa de whisky, arrotar como o melhor dos camionistas, lançar-se à minha braguilha como uma fera insaciável e perguntar-me, num tom sem ponta de glamour, se eu já tinha apagado cigarros nas nádegas de uma mulher.
segunda-feira, abril 12, 2004
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um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
um infalível critério permite distinguir uma mulher amada de uma mulher fornicada: depois de fazermos sexo com a primeira, apetece-nos rir, dormir ou ficar a olhar para ela sem dizer nada; depois de fazermos sexo com a segunda, apetece-nos tomar um duche e esperar que ela já não esteja quando terminarmos. Se ainda estiver, e quiser conversar, ou nos puxar pela mão, sentimos um ódio silencioso a tomar conta de nós.
quarta-feira, março 31, 2004
segunda-feira, março 29, 2004
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É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
É sempre tarde
talvez acordes as saudades ao deitar
e sintas solitárias na boca
as palavras que nunca me deste,
talvez me procures ao acordar
e chores numa raiva louca
o adeus que quiseste,
talvez encontres um amor se calhar
e tentes dar-lhe sôfrega
tudo o que escondeste,
talvez por destino ou por azar
seja tanta oferta coisa pouca
e tão pouco assim que ofendeste,
talvez se por ti um dia passar
grites por mim a ficar rouca
a paixão que não esqueceste,
talvez eu oiça em paz esse bradar
e sorrindo te mostre a forca
onde renasceu quem perdeste
sexta-feira, março 26, 2004
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Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
Puro-sangue lusitano
Quando se ressona toda a noite de forma gloriosa, para além de deixarmos em vigília os animais de estimação, a parceira do nosso leito transformada em mulher-bomba, e o tecto do quarto com humidade, acorda-se com uma notável expectoração verde-azeitona, que vem das profundezas dos brônquios, e traz consigo pedaços de cigarro, espuma de cerveja, e passa pelas gengivas levando também o que a não-lavagem dos dentes autorizou; metade do fígado de uma sardinha assada.
Quando se ressona a noite inteira, por vezes acorda-se tonto, embriagado de sono e cansaço, e os olhos cerrados e enramelados associam-se à sofisticada amnésia de levantar a tampa da sanita, como se isso desviasse o jacto de urina que enche a pantufa da parceira arrumada ao lado do bidé.
Quando se ressona a noite inteira, depois de uma sardinhada quase a provocar a extinção do espécime, facilitada por um oceano de vinho tinto, em cima de um baril de cerveja e uma saca de tremoços a marinar desde o lanche, por vezes, ao acordar, também fica um mal-estar na tripa a convidar ao esvaziamento. E dá-se obediência ao organismo, ficando a vizinhança a reclamar a ruptura das manilhas do esgoto.
Quando se ressona a noite inteira, são conhecidos os estragos infligidos à memória, perdoável, por isso, o esquecimento do autoclismo, mesmo que a sanita tivesse ficado lotada a ponto de pincelar as nádegas do utente.
Quando se ressona toda a noite, e após alívio intestinal, fica aquela fomezita matinal que mal permite tolerar um polvo em vinagrete, preterido na véspera, por causa das sardinhas. Mas o aconchego só vem, enfim, com três sandochas com presunto frito, suavizadas com equivalência numérica em cerveja, e finalizadas com meia garrafa de aguardente.
Quando se ressona a noite inteira, também não é excepcional uma ligeira irritabilidade, capaz de mandar para a puta que a pariu, a parceira legítima, porque esta apontou, com detestável delicadeza, uma nódoa na camisa.
Quando se ressona a noite toda, fica-se ocasionalmente com aquela sensibilidade paternal, em que só apetece resolver as birras dos filhos bebés com gás lacrimogéneo e pontapés na cabeça.
Quando se ressona a noite inteira e depois de tudo isto, ainda resta um ânimo estranho para apalpar o cu da filha do melhor amigo, no elevador.
segunda-feira, março 22, 2004
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POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
POEMA PARA OS AMANTES HOMICIDAS
dizes que já morri nos teus olhos
que as minhas palavras
secaram o teu leite de sofrimento
que davas a beber
a um bebé esfomeado
de egoísmo e de prazer,
dizes que estás curada de mim,
que esqueceste as minhas mãos
quando te amparavam triste
em lágrimas silenciosa,
que não lembras o meu riso
espalhado pelo teu corpo
sempre tão frio ao anoitecer
sempre à pressa de gritos,
dizes que fui nuvem sem vento
estacionada na tua cama
para te prender às mentiras
que oferecia sem inocência,
dizes que morri de vez
como as mortes que desejamos
eternas em cada dia,
dizes que enquanto vivi
fui espada e dor para ti
e razão de não estares viva,
e eu digo-te agora que morri
que ao ver-te tão feliz assim
a dançar por cima de mim
vais trazer-me de novo à vida
terça-feira, março 16, 2004
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Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
Os tempos não estão para o humor, mas fazem rir.
Ouvi hoje que o Governo iria reunir ao longo do dia com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e com o "Líder da Oposição", sobre questões de segurança.
Eu, que devo andar muito arredado da nova "orgânica" democrática, fiquei a saber que existe um novo "órgão", não sei se já de soberania, mas com uma importância tal que é ouvido pelo 1º Ministro, sobre matérias tão delicadas e decisivas como a segurança nacional. Denomina-se "Líder da Oposição".
Imaginem que me escaparam as eleições para a "liderança da oposição", ou então havia lá um espaço no boletim de voto e nem dei conta.
Esperem, ou será que os partidos com representação parlamentar votaram entre si o "líder da oposição"??
Ou o "líder da oposição" foi sujeito ao escrutínio secreto de um colégio eleitoral formado pelos directores de jornais e canais de televisão??
Ou o "líder da oposição" foi nomeado pelo Ministério Para os Assuntos da Oposição??
Bem, fiquei a saber, de qualquer modo, que o "Líder da Oposição" é o Dr. Ferro Rodrigues. Ele também ficou a saber.
Entretando os líderes do PS, do PCP e do BE, partidos representados na Assembleia da República, protestaram pelo facto do 1º Ministro os ter ignorado. O mais encarniçado era o socialista Ferro Rodrigues, que declarou aos jornalistas "Não percebo porque é que o sr. 1º Ministro convocou o Líder da Oposição e não me disse nada a mim".
Depois disseram-lhe ao ouvido e ele acalmou.
segunda-feira, março 15, 2004
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O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
O melhor combate ao terrorismo é a paz, a cooperação amistosa e séria, o respeito pelas identidades, a convivência pacífica, e a regulação supra-nacional democrática que a todos vincule, sem excepção.
Há que perceber, de uma vez por todas, que o neo-colonialismo económico e militar ocidental, sob o "selectivo" e cínico pretexto da exportação da democracia e dos direitos humanos, com a desestruturação da identidade cultural dos povos, com a ofensa à sua auto-estima e ao seu estilo de vida, com a humilhação e a vergonha impostas por uma ocupação militar para garantir governos "amigos" e manipulados, e permitir a usurpação impune dos seus recursos, desencadeia os mais irracionais ódios e enche de loucura justiceira os argumentos de "legítima defesa" que estão na base de certo terrorismo. Para os terroristas a matança de inocentes equivale à opressão continuada que exige vingança. O 11 de Setembro não foi um começo indiscriminado, foi uma retaliação, tal como este 11 de Março. E neste jogo homicida de "olho por olho, dente por dente", o imperialismo ocidental invade soberanias com bombas, e recebe em resposta um ódio tão cego que é capaz de pôr bombas no colo de compatriotas seus.
Não estamos num momento da luta do Bem contra o Mal, é apenas o festim incontrolável do Mal, ou nas suas exibições militaristas assassinas, ou nos ajustes de contas terroristas, que tamanha desproporção de forças estimula.
sexta-feira, março 12, 2004
Os monstruosos atentados de Madrid não me impressionam mais do que os corpos de crianças iraquianas dentro de hospitais e escolas, estilhaçados pelas bombas da "santa aliança" há uns meses atrás. A confirmar-se a autoria "árabe" do atentado, Aznar e o seu governo, fantoches do terrorismo de Estado norte-americano, não estão isentos de culpas. São eles que levam a morte em troca de petróleo, e alimentam o ódio de fanáticos extremistas.
terça-feira, março 09, 2004
.
não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
não tens o meu nome na tua boca
nem me pedes baixinho que diga ao ouvido o teu,
não gritas por mim dentro dos pesadelos
nem me convidas a sorrir que sonhe contigo,
não choras a minha ausência nos teus dias
nem seguras a minha mão em cada adeus,
não exiges que o meu corpo te pertença
nem protestas se dispensar o teu,
não tens medo do fim que prometo
nem me assustas com juras de despedida,
não desistes do silêncio
nem insistes nas palavras,
não sei se morres no desejo
que sufocas e que libertas,
nem se vives da dor
que te consome e te impele
segunda-feira, março 08, 2004
.
teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
teimo em que nada sejas,
como um deus que se encavalita na minha sombra
sem pedir licença,
nego-te em cada suspiro clandestino,
para dar fingimento à minha paz,
e mesmo quando te sinto torrente de fogo,
quando te misturas na minha fogueira,
baixo os meus olhos tão cobardes
e vejo-te gelada, ínfima, num ponto longínquo
a seres nada para mim.
domingo, março 07, 2004
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Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
Doce lar
(acção decorre numa casa típica alentejana)
Marido: Estoira o dinheirinho todo, estoira... se quiseres eu passo a dormir duas horas por noite e arranjo também o tal emprego como segurança para tu comprares cremes para o cú e fazeres a tal operação à barriga.
Mulher: Tu és incrível, quem é que te percebe? Não há um único dia em que não te queixes da minha barriga, que as minhas banhas davam para fritar um porco inteiro, que o meu rabo está cheio de borbulhas e que parece que tem sarampo. E queres que eu faça o quê? Que vá trabalhar a lavar escadas? Que aceite o emprego nas bombas de gasolina? A última vez que te disse que podia trabalhar ias me batendo, que tu ainda eras homem para sustentar a tua mulher, que na bomba de gasolina só trabalham putas e eu sei lá mais o que tu disseste.
Marido: Sim, e precisas de comprar um pulseira todos os meses? Comprares todos os livros, revistas e rifas dos jeovás? Meteres-te no yoga a vinte contos por mês só para estares com as pernas entrelaçadas? Como se tu fosses capaz de ficar naquelas posições? De consultares os búzios todas as semanas a cinco contos por sessão, para ouvires que ainda vais ser muito feliz quando eu morrer? De mudares a cor do cabelo de quinze em quinze dias? (irritado, subindo de tom) De levares a puta da cadela ao cabeleireiro só porque a vaca da nossa vizinha também leva a dela? Ao cabeleireiro??? Eu estou a deixar crescer o cabelo para poupar dinheiro, ouviste????
Mulher: Eu não aguento isto!! Juro que não aguento. Quando tive aquele ataque de nervos por causa da saída da Lara do Big Brother e tomei os comprimidos para a tensão, disseste-me que a yoga podia fazer-me bem, que a mulher de um amigo teu começou a ir e que ele já lhe batia e tudo e ela não fazia nem dizia nada. E o cabelo? Dizias-me que parecia uma velha com 200 anos, que a tua avó tinha menos cabelos brancos que eu. E os búzios foi ideia tua, quando eu entrei em depressão por causa do tarot? Lembras-te? As cartas diziam que o espírito do meu primeiro marido vinha comer à nossa mesa.
Marido: Sim, e ouve lá. Tu já viste bem a quantidade de jeans que a tua filha tem? Dava para vestir o bairro todo. E será mesmo necessário ter dois telemóveis, um por causa do namorado e o outro para combinar não sei com o quê? E os pares de ténis que tem já dava para abrir uma loja de desporto. E o tabaco que fuma? Ela é um hino vivo ao cancro do pulmão.
Mulher: Só pensas no dinheiro! és impressionante. Vê lá se falas nas notas dela e como estuda, este período só teve três negativas e foram altas.
Marido: Sim, não está nada mal para quem está a repetir o 10º pela terceira vez e anda em quatro explicadores, e passa a vida a fazer cábulas e a chegar a casa no carro dos professores.
Mulher: És mesmo maldoso! Tem tento na língua. Sabes perfeitamente que a Joana é fiel ao namorado, que é um rapaz como já não há.
Marido: Não te estás a referir a esse gandulo que já leva quase trinta anos nas nalgas e ainda chula os pais, que já teve dentro duas vezes, uma por roubar a reforma a uma velhinha à saída dos correios, outra por ter apanhado uma grandessíssima bebedeira e ter mijado para cima do padre na missa da bênção das pastas da irmã. E sobre a fidelidade da tua filhinha adorada, pergunta ao filho da aurora o que a viu fazer ao Zé polícia na noite do baile da pinha, e pergunta à equipa de futebol onze, futebol onze!, aqui da terra, sobre quem é que ainda não foi lá.
Mulher: Pois eu se fosse a ti, olhava mas era para o que o teu filhinho querido anda a fazer.
Marido: O que é que queres dizer com isso?
Mulher: Nada. Nada.
Marido: Já que começaste, agora acaba. O que é que o Leandro anda a fazer?
Mulher: Ah não sabes que a alcunha dele no liceu é "Borboleta"? o que é que te faz lembrar borboleta?
Marido: Sei lá, é esguio, mexido, irrequieto, ele sempre foi assim.
Mulher: Se sempre foi assim não sei, agora que ele já ganhou fama de maricas, isso podes ter a certeza.
Marido (levantando-se, completamente descontrolado, aos gritos): Maricas!!!! Não te esborracho já essas trombas todas porque ainda não levantaste a queixa na polícia. Mas juro-te que se voltas a acusar o meu filho disso, eu apodreço na cadeia mas rasgo-te o corpo todo à dentada, minha ordinária. Acusar o meu filho! O meu filho é muito macho, ouviste?? Ainda ontem trouxe uma rapariga para o quarto. Eu bem vi.
Mulher: E por acaso olhaste para o decote dela?
Marido: É claro que não olhei, não sou tarado como tu.
Mulher: Então as mulheres estão a mudar, porque agora nascem-lhe cabelos no peito. E a voz, ouviste? O Artur Semedo tinha uma voz mais delicada.
Marido (muito irritado): Cala-te já antes que eu perca a cabeça! Não volto a avisar-te! Isso devem ser histórias que aquele panasca brasileiro dos búzios anda a meter-te no sentido. Eu logo lhe faço uma visitinha, levo uma maceta e faço-lhe os búzios em farinha, e puxo fogo àquela merda toda se for preciso.
Mulher: Faz isso faz, e depois a tua mãe morre do coração. Sim, ou não sabes que ela passa lá os dias? E que lhe oferece coisas?
Marido: Ó mulher, tu por amor de deus tem cuidado contigo senão eu rebento-te toda. Tu não me venhas falar assim da minha mãe. A minha mãe, tal como eu, detesta essas coisas e o meu pai nunca lhe permitiria que ela andasse nisso, bruxarias e religião é o que o meu pai mais odeia.
Mulher: O teu pai? Não me faças rir. Então o teu pai faz sapateado nos lanches da IURD e depois vai com a cartola a recolher o dízimo.
Marido (furioso): Eh pá, agarrem-me senão eu mato-a! Então tu pensas que é tudo como a bimbalhada dos teus pais que são tão beatos que não passam de Santa Combadão para baixo por causa dos hereges, e quando eu fui lá a casa deles e lhes disse que o crucifixo de metro e meio que tinham no quarto por cima da cama, se um dia caísse podia matá-los, chamaram-me Satanás e queriam fazer-me um exorcismo?
Mulher: Ouve lá, agora por isso, o que é que tiveste a fazer em casa da astróloga Vanda ontem à tarde?
Marido: Ó mulher cala-te! A Vanda esteve a ler-me as mãos, o que é uma coisa absolutamente científica!!
Mulher: Absoluta aldrabice é o que é! Científica vai ser a fominha que vais passar ao jantar!
quarta-feira, março 03, 2004
domingo, fevereiro 29, 2004
.
O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
O risco
João: Dulce, há quanto tempo que somos amigos?
Dulce: Sei lá João, pelo menos há dez anos. És o meu melhor e mais antigo amigo, sabes isso, porquê?
João: Tu também és a minha melhor amiga. Por isso não levas a mal se eu te perguntar porque é que temos que vir a este museu todas as semanas.
Dulce: Porque este museu é de arte contemporânea João, e a arte contemporânea é muito complexa, cada vez que venho cá vejo coisas diferentes nas mesmas peças e nos mesmos quadros.
João: Também não levas a mal se eu te disser que só vejo um risco neste quadro, pois não? E acredita que desde a primeira vez que sempre vi e só vi um risco.
Dulce: tens que abrir a mente João, livrares-te de preconceitos morais e barreiras estéticas, aquilo é muito mais que um risco. A semana passada vi um combóio, vê lá tu. E tu se quiseres também podes ver muitas coisas diferentes.
João: tu viste um combóio onde está aquele risco? É extraordinário. Tu consegues ver coisas incríveis, como é que fazes?
Dulce: é tudo uma questão de atitude, de open mind, tás a ver? É pá, quero ver um combóio e consigo ver um combóio. As asas do espírito, tás a ver?
João: hã hã. Tou a ver. Portanto, para tu conseguires ver um combóio, estar ali um risco ou uma banheira é a mesma coisa?
Dulce: não, João. Se estivesse pintada uma banheira eu nunca poderia ver um combóio. Porque a banheira é uma figura definida e acabada, é uma constelação de formas que fecha o universo perceptivo e dirige e condiciona a tua distorção imaginativa.
João: e um risco não é um risco, como uma banheira não é uma banheira?
Dulce: não, um risco pode ser qualquer coisa, pois qualquer coisa é feita de riscos. O risco é a ferramenta da tua imaginação. O risco é um pretexto, é uma alavanca, um disparo, para tu criares a tua própria forma, de acordo com a tua sensibilidade, emoção e disposição. É por isso é que o mesmo risco nunca é apenas um risco e nunca é sempre a outra coisa que ele pode ser, porque essa coisa que ele pode ser é sempre aquilo que podes e consegues ver de acordo com as condições subjectivas do momento perceptivo.
João: Dulce?
Dulce: sim, João.
João: nós somos muito amigos um do outro não somos?
Dulce: sim, João, que pergunta, não sabes que sim?
João: então responde-me com sinceridade: tu não andas a tomar drogas, pois não?
Dulce: drogas? És parvo?
João: é alguma seita? Entraste para uma seita qualquer, é isso não é?
Dulce: estás louco? Que conversa é essa?
João: abre-te comigo, Dulce, diz-me o que é que se passa. Tu não estás bem, eu posso ajudar-te?
Dulce: tu é que não estás bom. Eu sinto-me optimamente.
João: sentes-te bem, não tomas nada, e consegues ver um combóio onde só há ali um simples risco sob um fundo branco?
Dulce: sim, agora já não consigo ver um combóio. Mas hoje já vi uma flauta, um aspirador e um aeroporto.
João: e achas que estás bem? Queres apostar que se eu perguntar às dezenas de pessoas que estão aqui o que vêem nesse quadro, que elas me respondem que é um risco?
Dulce: acredito, João. São mentes agrilhoadas, esmagadas pela evidência perceptiva, registos convergentes e unidireccionais. São bestas, João. Autênticas bestas. Uma ovelha também vê aí apenas um risco.
João: estás a chamar-me borrego? É isso que vês em mim?
Dulce: não João, o meu pensamento transcende a imediata legibilidade das formas. Eu olho para ti e vejo uma couve-flor.
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